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Romeu Ítalo Rípoli

Ex-presidente do XV de Piracicaba

Romeu Ítalo Rípoli, conhecido como "Flecha de Ouro", nasceu na cidade de Piracicaba-SP no dia 21 de novembro de 1916 e falaceu em 28 de outubro de 1983. Ele jogou como ponta direita no time da ESALQ-USP, mas ganhou notoriedade na presidência do XV de Piracicaba, quando foi comparado a Vicente Mateus, lendário presidente do Corinthians.

 
 

Filho dos humildes imigrantes italianos Caetano Ripoli e Maria Viccini Ripoli, se formou em 1940 pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), em Piracicaba. Durante a universidade trabalhou pela construção da sede própria do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, concretizado em 1963. Em 1943, publicou o livro "Quarenta Anos de Glórias", contando a história  Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz, entre 1903 e 1943.


Já como presidente do XV de Piracicaba, Rípoli levou o time do interior paulista excursionou pela Europa e pela Ásia. Naquela época, o Brasil já era bicampeão mundial e apenas o Santos e o Flamengo faziam esse tipo de viagem.

 

Em 1973, Rípoli voltou a presidência do Nhô Quim para o conduzir o time de ao vice-campeonato paulista de 1976, diante do Palmeiras. Em 1977, o XV ficou na oitava colocação do Campeonato Brasileiro.

 

Carismático, Ripoli se envolveu em diversas brigas com a Federação Paulista de Futebol. Ficou conhecido por sua inteligência, por falar vários idiomas e pelo jeitão caipira. Além disso, o dirigente era um  fumante inveterado. Sempre enrolando seu cigarro de palha, fazia tipo nos jornais e nos programas esportivos da TV, onde aparecia com frequência. 

Romeu Ítalo Rípoli, deixou o futebol. Contudo, deixou também uma filha cantora: Beth Rípoli, que casou-se com Luiz Carlos Franco, após ambos já terem vivenciado a experiência matrimonial por uma vez, trazendo três filhos e três netos consigo.

Confira abaixo o texto de Tomaz Caetano Cannavam Rípoli sobre o inesquecível Romeu Ítalo Rípoli, as grandes "Ripolianas":

RIPOLIANAS 1
Autoria: Cecílio Elias Netto
27/12/06
Há algum tempo, andei contando coisas que vi e vivi ao lado de Romeu Italo Rípoli, uma das mais fascinantes personalidades piracicabanas nas últimas décadas. Polêmico, controvertido, amado e odiado, Rípoli tornou-se símbolo da saga do E.C.XV de Novembro. Ele e o "Nhô Quim? pareciam uma só entidade. Falar em um era pensar no outro.
Na medida em que fui narrando lembranças ? a que dei nome de "Ripolianas? ? dei-me conta, pela reação dos leitores, que Romeu Italo Rípoli era, na verdade, uma fonte inesgotável de "causos?, fonte primária dele próprio como criatura folclórica. O Brasil falava dele como se Rípoli fosse herói de todos.
De uma certa forma, eu me tornara parte da explosão vulcânica que Rípoli lançava por onde passasse, onde estivesse. Pois, nos anos 1970, fui responsável ? envaidecendo-me, ainda, por isso ? pelo retorno do Rípoli à presidência do XV. Doente, abatido por injustiças políticas cometidas pelo governo militar, Rípoli entrara em grave depressão. E o XV agonizava. Eram, então, dois agonizantes. Por que não reuni-los, XV e Rípoli, a esperança de que um salvasse o outro? Rípoli voltou, aceitou o desafio. Salvaram-se, ele e o XV se salvaram. E eu perdi o sossego.
Na verdade, Rípoli deu-se o direito de impor-me ordens, de exigir, de tratar-me como se eu fosse filho mais velho, um irmão por afinidade do Caetano e da Beth. Ele não pedia, ordenava; não solicitava, exigia. Foi assim quando inventou que Joãozinho Paulista, um perna-de-pau, era o "melhor jogador do Brasil, um novo Pelé.? Mais ainda: "melhor que Pelé?. Rípoli queria vender o perneta para equilibrar as finanças do XV.
O interesse veio de Maceió, já contei essa história, retomo todas as "Ripolianas?, entregando-as, agora, às asas da internet. E lá nos fomos a Maceió. Ou melhor: ele me obrigou a ir com ele. E Maceió estava em festa: "Joãozinho Paulista, o novo Pelé, vai chegar.? Até Teotônio Vilela, o "Menestrel das Alagoas?, estava feliz com a grande conquista. Tive medo: e se os alagoanos descobrissem a farsa? E a "peixeira? alagoana, tão famosa quanto a sergipana?
Feito o negócio, apressei-o a voltarmos a Piracicaba, o medo de ser linchado. Estávamos a três dias do revéillon. Então, o início do desastre: Rípoli não marcara o vôo de retorno. Não havia mais passagens.  Fim de ano, céus alagoanos entupidos de aviões indo e voltando. Começou a via-crucis: de Maceió, a Salvador; de Salvador a Belo Horizonte; de Belô a Goiânia, indo e vindo. Em Goiás, Rípoli se lembrou: "Eu tenho uma sobrinha em Brasília. A Célia.? E enfatizou: "Ele é casada com um cientista da ESALQ, de nome alemão.? E lá ia, eu, saber de que Célia e que nome alemão ela tinha?
Ele começou a brigar comigo: "Ela é Célia João, de Piracicaba, você conhece. E conhece o marido dela, turco burro.? Seria ? pensei eu ? a Célia, irmã da Sônia João, a belíssima Sônia João? "É ela mesmo, a Célia, irmã da Sônia, casada com o alemão.? Ora, bolas: a Célia Blumenschein, mãe do André, amigo dos meus filhos. Mas e o endereço?
Lá se vai Rípoli ao telefone, querendo saber, em Piracicaba, o número da Sônia João para saber, dela, o telefone da Célia João Blumenshein. E a telefonista: "Sônia João do quê, meu senhor?? Rípoli: "Sônia João...? E a telefonista: "Mas Sônia João de quê?? Rípoli: "Sônia João de nada, só Sônia João.? E a telefonista: "Mas não pode ser apenas Sônia João, tem que haver mais algo além de Sônia João.? E Rípoli, enfim: "Ela é Sônia João, só João de João, não tem João de Mais nada, só Sônia João, sua burra.?
No final, conseguimos chegar, em Brasília, à casa da Célia. E, de lá, num teco-teco chegamos a Ribeirão Preto. E, de automóvel, a Piracicaba, já era revéillon. Rípoli, chupando o cigarro de palha, exultava: "Mas que eu vendi o João Paulista, lá isso vendi, não??
RIPOLIANAS 2
Autoria: Cecílio Elias Netto
31/12/06

Conheci Romeu Ítalo Rípoli aos meus 21 anos, em meio a ódios políticos da Piracicaba de então. Foi em 1961. E, levado por vendavais e furacões, vi-me, por sugestão do jornalista Luiz Thomazzi, transformado em diretor da "Folha de Piracicaba?, tido, então, como "jornal dos comendadores?. Era paradoxal: um jovem comunista no jornal da alta burguesia. E Rípoli, na liderança de uma UDN que tinha Salgot Castillon como líder populista. Os conflitos entre os grupos eram irreparáveis.
Os irmãos Rípoli, Romeu e Libero, mais do que conflitos, viviam paixões dostoievskianas. Fui amigo do Líbero, antes de sê-lo do Romeu. Era mais um na linha fronteiriça entre a genialidade e a loucura. Romeu e Líbero foram os nossos Irmãos Karamasov, odiando-se e amando-se extremadamente. E, apesar das graves diferenças políticas, as perseguições dos militares acabaram unindo-nos. Rípoli, líder revolucionário, foi amargamente injustiçado. O golpe militar, em Piracicaba, era apenas paroquial. Inimigos vingando-se de inimigos. Rípoli denunciou a corrupção na Câmara Municipal. O tiro saiu-lhe pela culatra: de acusador passou a denunciado. Foi perseguido, processado para, no final, receber como que um diploma de honestidade: o General Rubens Restell, em carta oficial, declarava-o inocente de qualquer suspeita em relação ao Imposto de Renda.
Mas o golpe moral fora grave. Rípoli entrou em depressão profunda. Não havia quem o tirasse da cama. Emagrecia a ponto de assustar amigos e familiares. Amigos ficávamos à sua cabeceira, Raul Coury, Telmo Otero, Tone Kraide, Luiz Cunha, entre outros. E, de repente, Romeu, que se dizia ateu e materialista, entregou-se a um fervor religioso quase doentio. Buscou leituras deprimentes, escatológicas, que propunham o "contemptu mundi?, o desprezo pelo mundo, ou a "fuga mundi?, a fuga do mundo. Rípoli, amante da vida, parecia um monge trapista.
Certo dia, ele apareceu no "Diário? e me presenteou com o livro "Confissões?, de Santo Agostinho, quase ensebado. Pensei tivesse, ele, finalmente enlouquecido. E mais me convenci quando, do bolso do paletó amarfanhado, tirou um livro famoso e também terrível pela apologia ao desprezo pelo mundo: "Imitação de Cristo?, atribuído ao místico alemão Thomas a Kempis. Até pelo menos os anos 1960, era uma das obras mais vezes impressas no mundo. Entre coisas, das que me lembro, Kempis dizia: "Quem se conhece bem se despreza. A ciência mais alta é o conhecimento exato e o desprezo de si mesmo.? Era tudo o que Rípoli precisava para se matar... Mas sobreviveu.
Devo ter-me entristecido por o Rípoli sobreviver. Pois ele infernizou-me a vida. Telefonava-me às 5 horas da manhã, mesmo sabendo que eu ia dormir às 4. Ficava na redação com seu cigarro de palha fedorento, queimando sofás, carpetes, a própria camisa. Pela manhã, ele ia à pastelaria do Mário Japonês, comprava três pastéis: um, comia-o pelas ruas, sujando todo o rosto. E os outros dois, ele os guardava nos bolsos do paletó. Para comê-los em minha sala, jogando as migalhas no chão. As faxineiras queriam matá-lo. E eu, também.
Certa manhã, percebi o Rípoli sarando. Tínhamos uma funcionária muito bonita. Ele chegou e deu-lhe uma flor. Cochichou-lhe coisas, a moça sorriu. Dias depois, ressurgiu barbeado, camisa nova, cheiroso. E sem a "Imitação de Cristo?. Desistira do "contemptu mundi?, de desprezá-lo. Voltara renascido, com fome de velho lobo, o Rípoli de sempre.


RIPOLIANAS 3

Autoria: Cecílio Elias Netto
03/01/07

Quando o Rípoli me convidava a viajar, eu sabia tratar-se de encrenca. Era certeza. No carro dele, eu não entrava. Pois toda a maluquice do homem se manifestava estando ele à direção de qualquer veículo, acho que até de carroça. Rípoli, dirigindo, era uma ameaça ao público. Não parava em semáforo, subia em calçada, estacionava em qualquer lugar, deixava o carro no meio da rua e, se guarda o abordasse, sentia-se ofendido.
Um dia, deu um safanão num guarda de trânsito e correu esconder-se em minha sala: "Estou sendo perseguido, o guarda quer me matar.? ? gritava. Quase chamei a polícia. E era um medroso. Tinha medo de avião, de estrada, sempre justificando os terrores de que era acometido. Em viagem, ele exigia velocidade máxima de 80km/h., alegando economia de combustível. Alguns anos depois, o Presidente Geisel ? na crise do petróleo ? determinou que, nas estradas brasileiras, a velocidade máxima de todos os veículos fosse de 80km/h. Romeu Rípoli era um homem além de seu tempo.
A maluquice de Rípoli tinha, pois, lampejo de gênio. Pois bem. Certo dia, ele chegou à redação, intimou: "Você e a Mariana vão ao Rio de Janeiro comigo e com a Belinha.? A falecida Mariana, mãe dos meus filhos, era uma dama mas imaginei-a dando, mentalmente, uma banana ao Rípoli: "Aqui, ó, e minha filharada?? E tinha outra coisa: de automóvel, ele não iria ao Rio; de avião, tinha medo e ? mão-de-vaca como era ? não custearia as passagens. E mais ainda: por que a Belinha e a Mariana irem, se elas não sabiam sequer o que era uma bola de futebol? Essa é outra história.
O fato é que o Rípoli seria julgado pelo tribunal de justiça da CBF e estava em pânico. Fingia valentia, mas era criança com medo de fantasma. Formou uma comitiva, na qual, dos que me recordo, estavam o advogado Luiz Cunha e o radialista Rubens Lemaire de Moraes. Percebi tratar-se de coisa feia quando o vôo foi marcado para sair de Viracopos onde e de onde, então, só aviãozinho pousava e decolava. Ousaria, o Rípoli, levar-nos de aviãozinho ao Rio?
Ousou, levou e nós, idiotas, fomos. No Rio, dividimo-nos em dois táxis. O Rípoli e as madamas, num deles. No outro, fui intimado a chefiar a caipirada: "Para o Hirto Hoter?, falou o presidente do XV. Estranhei houvesse, no Rio à época, hotel da cadeia Hilton. Ocultei a ignorância, pedi ao taxista: "Para o Hilton, por favor.?, trocando o caipiracicabanês pelo carioquês. Olhando a paisagem, o taxista falou: "Aqui não tem Hotel Hilton.? Ora, se o Rípoli falou que era Hotel Hilton, tinha que ser Hilton. "Não tem Hilton, meu senhor.? ? insistiu o motorista.
Entrei em pânico. Minha carteira, malas, minha mulher, tudo meu estava no outro táxi. O pessoal da rádio, sem dinheiro. O Luiz Cunha, no vigésimo uísque. E o taxista, desmentindo o Rípoli. O Lemaire ameaçou noticiar pela "Difusora?.  Eu pensava na Belinha e na Mariana: e se Rípoli as tivesse levado a Niterói?  Insisti: "Tem que tê Hirton: se o Rípoli falô tem que tê. Nói semo do XV, o Rípoli vai sê processado, vamo ficá no Hirton esperando ele sê preso.? ? deixei todo o meu carioquês de lado.
Então, a dúvida me assaltou: o tal de "Hirto Hoter? seria, mesmo, o "Hilton Hotel?? Pois, se não havia um "Hirto Hoter?, poderia haver um "Airto Hoter?. E se nem "Hirto? e nem "Airto?, por que não um "Hoter Horto?, um "Horto Hoter?? O taxista vibrou: "Ah, doutor, esse Horto Hoter existe. É o Othon, ali na esquina.? Era.

RIPOLIANAS 4
Autoria: Cecílio Elias Netto
17/01/07

Então, deixando os caipiras no Othon, fui ao hotel onde o Rípoli instalara sua corte: Belinha, Luiz Cunha, Mariana e eu. Assustei: era o Hotel Glória. E acendeu-se-me uma luz no mais fundo da inteligência: "Tem mé no toco.? Pois, mão de vaca de fama universal, Rípoli não pagaria -- a não ser por segundas intenções -- diárias no Hotel Glória para pobres diabos como nós.
Mais à noitinha, num jantar quase de gala, comecei a entender, à chegada de repórteres de jornais, de rádio, de televisão. Até a sala de imprensa do Glória fora reservada: Rípoli ia falar! E imagine se ele, Romeu Ítalo Rípoli, falaria à imprensa carioca em outro hotel que não o Glória ou o Copacabana Palace?
Como ia ser julgado pela antiga CBF -- um processo esportivo -- ele mobilizou a imprensa, agitou o Rio, esculhambou o Hotel Glória, acho que ofereceu champanha e caviar aos jornalistas, não me lembro. Circo armado, lá nós fomos, no dia seguinte, assistir ao julgamento dele pelo tribunal esportivo. Parecia filme de suspense, semelhante a "Psicose?. Abrem-se as cortinas: Luiz Cunha puxa o cordão, Rípoli chega de braço dado com Belinha; eu, com Mariana. Só faltou a banda "União Operária? para tocar "Pompa e Circunstância?.
Iniciada a sessão, Cunha começa a falar, Rípoli o interrompe: "Incelências: eu é que vô fazê minha defesa.? A sessão parou, o tribunal tremeu, trocam-se consultas e cochichos, decide-se: "já que tá que fique e Rípoli se defenda.? Quem se lembra da Libertad Lamarque, a atriz argentina que inundava o mundo de lágrimas com seus dramalhões? Rípoli era a própria Libertad, o Felix Caignet de "O Direito de Nascer.? Eu chorei, tu choraste, ele chorou, nós choramos. O mundo chorou. Rípoli, soluçando, olhava para Belinha: "Minha santa esposa, o que será dela se eu for condenado? E meus filhos, rezando por mim em Piracicaba?? Mentira. O Caetano estava namorando e a Beth Rípoli, tocando piano.
Luiz Cunha e eu queríamos morrer; minha mulher matar-me. Mas -- fungando e assoando narizes -- os juizes absolveram o Rípoli por unanimidade. E aplaudiram-no. A imprensa carioca chamou-o "maior dirigente esportivo do Brasil, exemplo para redimir o futebol brasileiro.? Rípoli achou pouco.
No dia seguinte, ele nos levou a uma audiência com o presidente da CBF, Almirante Heleno Nunes, homem dos militares. Era na rua da Alfândega. Outra vez não entendi: por que a Belinha e a Mariana tinham que ir conosco? O Almirante fez-nos entrar, Rípoli e eu, ficamos na conversa mole. De repente, o Rípoli falou: "Almirante, minha mulher, Belinha, veio até o Rio só para homenagear a sua excelentíssima senhora.?
Belinha nem sabia o nome da tal excelentíssima senhora Heleno Nunes. Mas, com Mariana ao lado, entrou. Pareciam duas tontas, trêmulas. E eu tremi -- pensando em prisão, em tortura militar -- quando vi dona Bela com uma requintada caixinha nas mãos. Rípoli andava interessado em pedras preciosas e imitações, presenteava os amigos com pedaços de zircônio como se fossem diamantes. Entrei em pânico. Mas, sem gaguejar, Belinha falou: "Em nome da muié piracicabana quero homenageá a sua muié que é símbolo da muié brasileira.? Era um colar de esmeraldas.
Imaginei a manchete nos jornais: "Rípoli e quadrilha tentam subornar o Almirante.? Mas escapamos. Dois dias depois, ofício de Heleno Nunes designava o XV convidado especial do campeonato brasileiro de futebol. O time, capenga, estava quase à morte. Mas Rípoli provou: esmeraldas ressuscitam qualquer defunto. 

 

RIPOLIANAS 5
Autoria: Cecílio Elias Netto
23/01/07

Era 1974. Quem imaginaria governantes precisando do silêncio de Romeu Italo Rípoli? Aconteceu. Naquele complicado ano ? Geisel no poder ? até o futebol tornara-se questão de "segurança nacional?. O "milagre brasileiro? já se esfumaçara, ia-se esgotando o governo militar e o povo, inquieto. No futebol ? finda a "era Pelé? ? o Brasil chegara a um humilhante quarto lugar na Copa do Mundo da Alemanha. O governo começava a perder as rédeas. O MDB, nas eleições daquele ano, dera uma sova nos governistas, refletindo a insatisfação das massas.
Em São Paulo, outro problema sério: o Corinthians há 20 anos não vencia um campeonato. Pesquisas diziam de uma explosão popular se outra derrota acontecesse. A nação corintiana estava desesperada e isso refletia até no trabalho. Em dezembro daquele ano, a final do campeonato paulista seria a mais explosiva: entre Corinthians e Palmeiras. Foi quando o silêncio de Rípoli se tornou mais importante.
Os meios políticos e esportivos sabiam: havia-se negociado para o Palmeiras "facilitar? o jogo e o Corinthians ser campeão. Em nome da "segurança nacional?, diante de rebeldias que alarmavam o governo Geisel. Paulo Egydio Martins, de quem eu me tornara próximo, era governador de São Paulo. Na Assembléia Legislativa, o líder era Nabi Abi Chedid, deputado e também poderoso mandante da Federação Paulista de Futebol. Tudo se acertou: Palmeiras "entregaria? o jogo; Corinthians, campeão ? alegria do povo, algum tempo de paz. Mas... E Rípoli?
Pois se Rípoli, presidente do XV, não concordasse e denunciasse o acordo, o escândalo seria nacional, pão de ló e prato cheio para a oposição. Recebi, então, em telefonema, um pedido insólito de Paulo Egydio: convidar o Rípoli para um encontro sigiloso na ala privativa do Palácio Bandeirantes. Não falou do motivo, não perguntei. Rípoli, na sua vaidade imensa, ficou eufórico, delirou. Quase precisei amordaçá-lo para ele não trombetear na esquina do Banco do Brasil: "O Governador tá implorando pra falá cumigo!?
E lá nos fomos. Na ala privativa, Paulo Egydio ? mais sorridente simpático do que nunca ? nos esperava com gentilezas. Abraçou o Rípoli, elogiou-o. Percebia-se a chantagem emocional. Aparentando tranqüilidade, Nabi Chedid sorria, a raposa cuidando do galinheiro. Conversa mole daqui, de lá, Rípoli foi informado: "O Corinthians, por questão de segurança nacional, tem que ser campeão.? Paulo Egydio pediu a compreensão e o silêncio do presidente do XV, crítico implacável da Federação.
Rípoli tirou o canivete, picou o fumo, enrolou o cigarrinho de palha. Então, referindo-se ao Nabi e a mim, perguntou : "Esses dois turcos estão de acordo?? Meio com vergonha, concordei. Nabi também, mas sem aparentar vergonha. Rípoli pediu ficássemos em pé, o governador à frente. Ficamos: Nabi e eu, Rípoli no meio. Então, ele pediu Nabi e eu erguêssemos os braços. Erguemos. Rípoli segurou-os em forma de cruz, falou: "Tudo bem. Mas o governador é testemunha. Estou aqui como Cristo na cruz: entre dois ladrões!?
Foi inútil o silêncio do Rípoli. O Corinthians perdeu. E eu suei sangue para impedir o Rípoli de enviar, ao governador e ao Nabi, um telegrama simples: "O roubo não compensa.?

RIPOLIANAS 6
Autoria: Cecílio Elias Netto
26/01/07

Há algum tempo, escrevi sobre a "filosofia do eu sei?. E foi com o Rípoli que aprendi a importância ? nas lutas políticas ? de se enfrentar adversário sempre aguardando ser apunhalado pelas costas. Há uma diplomacia do "eu sei?, um certo saber a respeito do outro, um pouco de saber das coisas.
Certa feita foi Romeu Ítalo Rípoli quem nos deu ? a jornalistas e políticos, também a pessoas comuns ? uma saborosa lição sobre a força, o poder dessa diplomacia do "eu sei?, aliás, hipócrita como qualquer diplomacia. Mas sábia. Convenhamos: o que é, a civilização, senão a forma elegante de viver hipocrisias, evitando tragédias maiores e carnificinas permanentes?
Um dos exemplos: em vez de roubar-se a mulher alheia ? como se fazia nas cavernas ? o homem civilizado criou a lei da conquista. Ao haver ofendidos, tentou-se substituir assassínios enlouquecidos ? transformados em coisa de bárbaros ? por duelos civilizados ou atitudes mais gentis. Arthur fingiu não saber da paixão de Guinevère por Lancelot. Ninguém morreu, Lancelot perdeu. Nas cortes, tudo se resolvia entre muros.
Voltemos ao Rípoli, à sua diplomacia do "eu sei...? Em 1976 ? o XV já consagrado como vice-campeão do futebol paulista ? Rípoli, com popularidade incontestável, aceitou ser candidato a Prefeito de Piracicaba. Chegar à Prefeitura era-lhe o grande sonho, irrealizado. Pesquisas eleitorais davam-no como imbatível. Penso que, se ele tivesse ficado em sua casa ? calado e sem cometer as mais incríveis sandices políticas ? talvez, tivesse conseguido, sei lá. Rípoli, como sempre, falou demais. E perdeu.
Mas não é esse o assunto. A luta política era intensa e Rípoli, um homem controvertido, polêmico, uma candidatura complicada. A imprensa estava dividida, mas as rádios eram-lhe claramente hostis, fosse ele candidato ou não. A paixão pelo XV despertava reações radicais. E uma das emissoras decidiu promover um debate público com os candidatos, começando por Romeu Ítalo Rípoli. Foi na "Sociedade Italiana?.
E a promessa de alguns debatedores era a de um massacre, de linchamento moral, de tiro ao alvo, misturando política com vida privada, um salve-se-quem puder. Haveria uma armadilha política e um momento de vingança. Havia sede de sangue. O povo lotou as dependências do clube, lembrando os romanos na arena, torcendo mais para as feras do que para o gladiador. Ou público de tourada, à espera de sangue, do touro ou do toureador.
Estranhamente, Rípoli estava calmo, como se indiferente ao que lhe fosse perguntado. À espera de ser chamado, ficou enrolando o cigarrinho de palha. Ao ir ao palco, cumprimentou cada um dos debatedores. Mas de maneira estranha. Abraçava um por um, falava-lhes coisas no ouvido. E eles, contrafeitos, voltavam a se sentar. Ninguém entendia. As feras, a cada cochicho do Rípoli, ficavam dóceis feito cordeiros. Tão dóceis que fizeram perguntas como se dirigidas à Branca de Neve. Rípoli usara a diplomacia do "eu sei...? Cochichando, dava o recado: "Eu também sei de você...? E contava, no ouvido, o que ele sabia. Rípoli foi um especialista na arte dessa diplomacia do "eu sei...? Ainda que hipócrita e apesar dos tolos ? ela consegue, ainda, impedir o retorno à lei das selvas.

Ripolianas 9
Autoria: Cecílio Elias Netto
19/02/07

Recentemente, um amigo comum indagou-me, a respeito de Romeu Ítalo Rípoli: "como você conseguiu gostar dele?? Não estranhei. Diante de Rípoli, não havia meio termo: ou se gostava dele ou se detestava. E tinha mais: de repente, quem gostava passava a detestar; quem detestava começava a gostar. Com a possibilidade de tudo se inverter.
Minhas relações com ele, já o contei, iniciaram-se com implicâncias e raivas mútuas. E, quando o conheci, eu era pouco mais do que garoto. E ele, homem maduro, polêmico, famoso. Fui, primeiro, amigo do Caetano. Deve, então, ter acontecido o que a sabedoria dos antigos ensina: "Quem beija meu filho adoça a minha boca.? De tanto gostava, eu, do Caetano, o Rípoli acabou gostando de mim. E nem a morte conseguiu separar uma amizade que, ainda hoje, me faz falta.
Aquele meu amigo vivera essa experiência ripoliana: companheiro de Rípoli, gostava dele, passou a detestá-lo. Em alguns momentos ? especialmente quando se está à distância ? gosta-se de furacões. Quando próximo deles, foge-se. Rípoli era furacão, maremoto, dilúvio, vulcão, terremoto, sarna para coçar, amigo leal e inimigo cruel, passional, sangüíneo, hormonal, nossa festa, o diabo que nos carregava e o raio que nos partia. Absolutamente humano,enfim.
Quando estouram tantos escândalos no futebol braisleiro ? envolvendo um empresário piracicabano ? há quem me pergunte se era verdade que Rípoli subornava juizes, jogadores. E vou lá, eu, saber? Mas me lembro-me do que aconteceu num domingo. O presidente da Federação Paulista de Futebol ? o todo-poderoso e gentleman José Ermírio de Moraes, irmão de Antônio Ermírio ? aceitou o convite de Rípoli e veio assistir a um jogo decisivo do XV, que perigava retornar à segunda divisão. Rípoli quase exigiu que um juiz, o Olten Aires de Abreu ? que presidia o departamento de árbitros ? também viesse, convidado especial. E os dois iriam almoçar na mansão da Cidade Jardim, até hoje penso no nervosismo de Belinha Rípoli, grande dama.
Bobo que sou, eu não aprendera: quando Rípoli me intimava a participar de reunião, viagem, festa, qualquer convite era de se esperar encrenca. Aconteceu. Há pouco tempo, o amigo Antônio Ulisses Micchi ? radialista de voz inigualável, à época ? lembrou-se do fato que, parecendo folclórico, foi absolutamente real. Ao almoço, lá estávamos "en petit comité?: José Ermírio, Olten, Rípoli, Luiz Cunha e, feito bobo, eu. Radialistas, repórteres entravam e saíam.
Ao final do almoço, Rípoli anunciou: "Agora, um vinho especial para o Olten, um vinho que eu trouxe da Itália.? José Ermírio sorriu, feliz diante de tanto cavalheirismo. Olten, o chefe dos juizes, sentiu-se glorioso. Mas Rípoli impôs uma condição: "O Olten tem que ir buscá-lo. Está na geladeira.?
Não me lembro se o Olten retornou à mesa com o vinho, sem o vinho, se alguém o experimentou. Sei que, no dia seguinte, os jornais explodiam em manchetes indignadas: "Olten denuncia: Rípoli tentou suborná-lo.? Em vez de vinho, Olten dizia que Rípoli lhe oferecera dinheiro: "Ele deixou embrulhado num pacote, dentro da geladeira?. Deu processo, confusão, Rípoli não se abalou. E juro pelos céus que eu nunca soube a verdade.
Sei, apenas, que ? depondo sobre o assunto ? Rípoli inverteu a situação: "Eu é que denuncio o Olten: é um larápio. Ele roubou o meu dinheiro. Pois a geladeira é minha, o dinheiro é meu. Se é meu, ponho o dinheiro onde eu quiser.? E tudo morreu ali.
Ripolianas 10
Autoria: Cecílio Elias Netto
01/03/07

A promiscuidade entre ditos pastores e política partidária, negociação de votos, manipulação de eleitores ? isso já é coisa antiga. Apenas aperfeiçoou-se, da mesma forma como traficantes aperfeiçoam métodos de tráfico. Rípoli não escapou a esse assédio, pois, além de dirigente esportivo, foi político atuante.
O sonho dourado de Romeu Ítalo Rípoli: ser prefeito de Piracicaba. Fora vereador, presidente da Câmara, candidato a vice-prefeito, faltava-lhe a Prefeitura. Seus planos eram não digo que megalomaníacos, mas de um visionário. Ele conseguia enxergar o futuro. E acabou candidato a prefeito. Por minha culpa, que lancei a sua candidatura, convencendo-o a aceitá-la. Não fosse a língua incontrolável, Rípoli poderia sair-se vitorioso.
Quando os ditos pastores insistem em imiscuir-se em política partidária e eleitoral, lembro-me do Rípoli. Naquela campanha, de 1976 ? o eleito foi João Herrmann Neto ? o XV tinha sido vice-campeão paulista, a popularidade de Rípoli era um fenômeno.
Certa manhã, todo excitado, ele chegou à redação de "O Diário?. Chegou, não. Invadiu-a . E exigiu: "Você tem que ir comigo à igreja do pastor. Ele garantiu que serei eleito com os votos que ele têm para me dar.?
Cocei a cabeça. Lembrei-me do Domingos Aldrovandi, nosso amigo comum, líder metodista, homem sério, até chato de tão severo. Certa vez, o Aldrovandi me fizera o mesmo pedido, pedindo sigilo: "Você me acompanha ao terreiro do pai de santo?? Fui. O "preto velho?, como se dizia, fez um círculo de pólvora em torno do Aldrovandi que tremia feito vara verde, os olhos pedindo socorro. Em pânico, ele me puxou para dentro da roda, o pai de santo tacou fogo na pólvora, pum! ? o mundo pareceu ter acabado em fumaça. O bruxo acalmou garantiu: "Agora, os caminhos estão limpos.? Pago o serviço, saímos correndo. Mas os caminhos não se abriram: Aldrovandi foi derrotado.
E lá me fui acompanhar o Rípoli ao templo do pastor. O porta-voz de Deus gritava, xingava os demônios que dizia terem infestado Piracicaba. Mas que ? "bendizei, irmãos!? ? o enviado chegara e estava entre nós: "Romeu Ítalo Rípoli?, anunciou, à assembléia tomada de histeria coletiva. Não me lembro se soaram trombetas de anjos, mas sei que o Rípoli caminhou por entre a platéia histérica e, com certeza ? com sua peculiar humildade ? dizendo-se: "Ecce homo, eu.?
O pastor explicou que, para obter a graça dos votos, era preciso ser generoso. Quanto mais contribuísse, mais votos Rípoli receberia. Gelei: era a hora de a porta torcer o rabo. Pois Rípoli tinha fama universal de ser mão-de-vaca. Pensei na porca, lembrei-me da vaca, gemi: "Agora, a vaca vai pro brejo.? Mas Rípoli pôs a mão no bolso, tirou uma nota. O pastor franziu o cenho: "Rípoli acaba de ganhar 10 votos.? Era uma nota de dez cruzeiros. Rípoli tirou outra: "Ganhou mais 50 votos.?, anunciou o pastor, com a nota de 50 cruzeiros. Outra nota do bolso ripoliano: "É dando que se recebe: 100 votos.? No final do culto, o pastor ? com cânticos de louvor ? anunciou: dando mil cruzeiros, Rípoli receberia mil votos do rebanho de fiéis. Era a glória.
Durante a apuração, Rípoli anotava os votos. A situação estava ruim. Mas ele esperava: "Ainda faltam os mil votos do pastor.? No final, derrotado, ele me falou: "O morfético do pastor me enganou, você não acha?? Admiti: "Parece...?  

Ripolianas 11
Autoria: Cecílio Elias Netto (www.aprovincia.com)
O homem que perdeu para si mesmo.
Se é verdade que, sem o Ripoli, o mundo ficou mais calmo, sereno ? minha vida, também ? o fato é que, sem ele, se tornou menos divertido. Desde que o Ripoli morreu, tento, por exemplo, dormir sossegado, na esperança de que ele não irá me telefonar de madrugada. Ele se deitava às oito da noite, acordava às três da manhã; eu dormia às quatro, Ripoli me acordava às cinco. Há noites, ainda hoje, em que me deito desassossegado: e se o Ripoli me telefonar? Com ele, tudo foi possível. Deve ser ainda agora. Até tempos eleitorais, sem o Ripoli, são mais calmos. E, também, mais chatos.
Na sucessão do Adilson Maluf, em 1976, as bruxas continuavam à solta em Piracicaba. E ? depois de tantos anos e de muito pensar ? quase acredito a cidade ter-se infestado de pó de mico ou que, então, dera ataque coletivo de excesso de testosterona na mundo masculino. Pois ninguém se aquietava, ninguém se entendia, confusão total. E lá estava o Ripoli candidato a prefeito, outra de minhas invenções. .Com o "Nhô Quim? tendo-se tornado vice-campeão paulista de futebol ? o primeiro clube interiorano, até então, a conseguir tal feito ? a popularidade de Ripoli, já contei, impressionava. Ele fingia não querer ser candidato, fazia charme. E as pesquisas iniciais eram estimulantes, dando-o como imbatível numa eleição à prefeitura. Não perderia para ninguém. A não ser, para si mesmo.
A confusão era total. Todos brigavam entre si e com os outros. Ripoli, como um escolhido dos deuses, ficava à porta do Banespa ? na rua Moraes Barros ?fazendo cigarrinho de palha, esperando cumprimentos. Era como se ele fizesse um favor a Piracicaba em sendo candidato. Parecia dizer: "Piracicaba merece Ripoli?. A vaidade ripoliana se transformou em arrogância. E a arrogância, em petulância. Repetia-se o que os antigos já sabiam: quando os deuses querem destruir um homem, enlouquecem-no pela vaidade.
E aconteceu. As pesquisas não se alteravam: Ripoli, o favorito; a Arena, partido vitorioso. Isso era tão sério que até o José Borghesi ? candidato a vice na chapa de João Herrmann ? declarara: "meu voto é do Ripoli?. A campanha de Herrmann era leve, despretensiosa. Foi quando Ripoli inventou de brigar com os padeiros. Prometeu criar padarias municipais, que o pão sairia quase de graça para o povo. De um dia para outro, cada padeiro, cada entregador de pão passou a fazer campanha contra Ripoli.
E ele, fazendo cigarrinho de palha. Os primeiros sintomas chegaram: Ripoli caía, Jairo Mattos crescia. Não acreditando, ele resolveu fazer sua própria pesquisa. Lá na Rodoviária, perguntava às pessoas: "Seu voto para prefeito.? E elas, gentis, vendo-o pessoalmente: "Ripoli.? Com os papeizinhos na mão, voltava à redação, como se quisesse esfregá-los em meu nariz: "Tá vendo? Pesquisei um por um, todo mundo vai votar em mim.? Brigado com Adilson, prometeu: "Vou demitir os engenheiros da prefeitura.? Diante de alguns aplausos, Ripoli entusiasmou-se: "Vou demitir funcionários também.? O funcionalismo resmungou, ele explicou: "Só uns 200.? Os adversários gostaram, Ripoli não percebeu, delirou: "Anotem aí: vou demitir 1.500 funcionários da Prefeitura.? O MDB venceu a Arena por apenas 86 votos, Herrmann se elegeu. Ripoli perdeu para si mesmo. E culpou a imprensa.
RIPOLIANAS 12
Autoria: Cecílio Elias Netto (www.aprovincia.com)
Quando Rípoli quis contratar Rivelino
A paixão piracicabana pelo E.C.XV de Novembro ainda não foi de todo compreendida por nossas classes dirigentes. O Nhô Quim é uma de nossas griffes principais. E, quando o povo tem bandeiras comuns, tudo fica mais fácil, no fortalecimento de identidades. Romeu Ítalo Rípoli sabia disso. E sua paixão pelo XV beirava à irracionalidade. Pelo XV, o XV como fim, valiam todos os meios. Até o golpe do baú.
Rípoli era mestre em realizar o que hoje passou a se chamar de factóide. Se não havia notícia, ele inventava. Se nada de novo acontecia, ele criava. E seus blefes e invencionices eram tão absurdos que passavam por verdadeiros.  Na década de 1970, o Corinthians perdeu um título tido como ganho num jogo contra o Palmeiras. Tudo estava acertado para o Corinthians voltar a ser campeão, algo que, então, parecia, aos governos militares, como questão de segurança nacional. Mas o Corinthians perdeu. E o bode expiatório foi o extraordinário craque Rivelino que, na verdade, tremeu naquele jogo. E a torcida o execrou, transformando, num momento, o ídolo em vilão.
Era incrível: a torcida corintiana não queria mais Rivelino no time. E, por quantia milionária, o Corinthias começou a negociá-lo com o Fluminense, do Rio de Janeiro. Era quase que uma ofensa ao futebol paulista, no qual Rivelino reinava de forma esplendorosa.  E o que fez, então, Romeu Ítalo Rípoli?  Convocou a imprensa paulista, jornais, rádios e emissoras de televisão, informando que tinha uma grande notícia para dar, decisão bombástica.
Ora, todos sabiam da difícil situação financeira do XV, mas controlada de maneira genial por Rípoli. Ele contava tostões. Jogadores tinham salários  baixos, básicos. E ele dava "bichos? altíssimos por cada vitória. A estratégia fazia com que jogadores se matassem em campo para ganhar os "bichos?. E dava certo. Mas a situação financeira era precária. Mesmo assim, Rípoli convou a imprensa, anunciando a "bomba?, aquela que seria uma contratação de repercussão internacional. Enrolando o cigarrinho de palha, diante de microfones e câmeras de televião, Rípoli anunciou, com aura de herói:
O que o Corinthians está fazendo é uma vergonha para o futebol paulista.  Rivelino é patrimônio dos paulistas e não podemos admitir que ele se transfira para o Rio de Janeiro.
Paralisaram-se microfones, máquinas fotográficas, emudeceram-se jornalistas e radialistas. Rípoli lambeu a palha do cigarrinho, deu o nó final, acendeu, tirou umas baforadas, fulminou a imprensa nacional:
Diante de tamanha agressão ao futebol paulista, eu resolvi: o XV irá fazer um grande sacrifício, mas não permitiremos que Rivelino vá para o Rio de Janeiro. Já comuniquei à diretoria do Corinthians que quero comprar o passe de Rivelino, que ficará em São Paulo e jogará com a camisa alvi-negra do Nhô Quim.
A mentira era tão grande, mas tão grande que ninguém duvidou. E, durante um mês, o XV e Rípoli ocuparam espaços e tempo enormes nos meios de comunicação brasileiros. O Fluminense, diretoria e torcida,  quase enlouqueceram, o Corinthians aumentou o preço do passe de Rivelino e Rípoli, com cara de santo, alegava que a diretoria corintiana estava fazendo jogo sujo com o XV, leiloando Rivelino. Que, obviamente, foi para o Fluminense. E Rípoli nunca confirmou ter sido blefe e mentira a oferta por Rivelino. "Eu ia comprar, estava tudo certo. O Corinthians é que me traiu.? 
Para se ver que não se fazem mais Romeu Rípoli como antigamente. 

RIPOLIANAS 13
Autoria: Cecílio Elias Netto (www.aprovincia.com)
E Rípoli transformou Ditinho em Ditão
Se houve o que Romeu Ítalo Rípoli soube jogar, esse foi o jogo da vida. Pois a vida é jogo. E jogo é algo profundamente sério, parte da alma humana, elaboração do "homo ludens?. Os que não entendem pensam que jogo é algo menor, mas é ciência e arte que começaram a se compor desde que o homem saiu de sua caverna e descobriu ter um vizinho. Nos esportes, na ciência, na família, na convivência e na coexistência, há sempre um jogo. E são jogos sérios, pois tem regras definidas. O jogo acaba quando as regras são menos prezadas. Pois, então, vira bagunça, desordem.
Rípoli sabia jogar. Às vezes, pensava ser dono do jogo e, então, as coisas complicavam. Mas, dentro das regras, ele sabia como agir, como fazer, como recuar e atacar. O futebol, em toda parte do mundo, tem, fora de campo, um jogo de influências, de simulações e de dissimulações. Rípoli não apenas tinha consciência disso, mas era um especialista.  Na verdade, já eram "regras do mercado?, mesmo antes de o Brasil tê-las oficialmente adotado.
Aconteceu na década de 1970. A Portuguesa Desportos havia revelado, em São Paulo, um zagueiro que se transformara sensação nacional, um gigante de ébano, o Ditão. Atlético, vigoroso, imponente, Ditão acabou transferindo-se para o Corinthians onde se transformou em ídolo da torcida e obteve consagração nacional. Pois bem. Ditão tinha um irmão, o Ditinho, com semelhanças físicas e também no estilo de jogar. E Ditinho iniciou sua carreira no XV de Piracicaba, sob a presidência do XV.  Mas Ditinho era inexpressivo, em relação à fama e ao prestígio do Ditão, irmão mais velho.
E seria lá, isso, problema para Romeu Ítalo Rípoli?  Pelo contrário: no jogo, era uma vantagem, a tal "prata da casa?, jóia rara, uma promessa real de grande jogador, como os clubes e empresários têm feito nos últimos anos. Rípoli fazia antes, visionário que foi. E começou a divulgar o nome de Ditinho: "É o novo Ditão.? E, em poucas semanas, já apregoava e anunciava: "É melhor do que o Ditão. O Ditinho é o do Corinthians; Ditão é o do XV. " E já tinha planos para faturar em cima do garoto.
Diante de tanto barulho na imprensa, o Flamengo começou a se interessar pelo passe de Ditinho. Mas era interesse ainda pálido, tímido. Rípoli, no entanto, sabia jogar, tinha relações. Era grande amigo do então presidente do Santos, o influente Modesto Roma. E pediu ao colega santista que lhe fizesse um grande, um imenso favor: que, pela imprensa, informasse que o Santos estava interessado em adquirir o passe de Ditinho.  E Modesto Roma participou do jogo: "O Santos está negociando o passe de Ditinho, um craque com muito mais categoria do que o Ditão, do Corinthians. São irmãos, mas Ditinho é mais jovem, mais habilidoso e tem grande futuro.?
Não deu outra. O vice-presidente do Flamengo ? o suíço Gunnar Goransson, todo-poderoso presidente da multinacional Facit ? se interessou, quis "passar a perna no Santos? e "atravessou? o negócio, para alegria e felicidade de Romeu Ítalo Rípoli. Resultado: o Flamengo comprou o passe de Ditinho que nunca chegou a ser Ditão e, além de pagar um dinheirão, o Gunnar Goransson fez a Facit financiar e montar todo um esquema para o XV de Piracicaba excursionar à Europa. O Dr.Tomaz Caetano Rípoli, filho querido de Romeu, lembra-se de tudo isso e, entre orgulhoso e ainda assustado ? pois foi testemunha ocular das entranhas do jogo ? conta das peripécias do pai. De vice-campeão paulista, de clube e time conhecidos na Europa, de clube e time respeitados no Brasil todo ? a uma dramática saga de estar na divisão dos pequeninos....
Rípoli liderava e, em torno dele, a cidade, o povo, empresários mobilizavam-se com confiança e entusiasmo. Rípoli sabia que, no jogo do desenvolvimento da própria Piracicaba, o XV, o "Nhô Quim? era a grande marca, a griffe especial.
Ripolianas 14
Autoria: Cecílio Elias Netto (www.aprovincia.com)
Provocando a peixeira de alagoano
Ninguém escapou às aprontadas de Romeu Italo Rípoli. Nem o filho Caetano. Ou melhor: especialmente o Caetano, filho "hóme? de Romeu Ítalo Rípoli, não conseguiu fugir às invenções, arrumações, aprontadas que ele fazia. Aconteceu em Maceió, onde Caetano morava, atuando em sua especialidade científica na área agronômica. Querido na sociedade alagoana, o casal Caetano e Lúcia Rípoli participava das atividades locais, era requisitado para festas, encontros. Até que, um dia, o presidente de um dos principais clubes alagoanos, o CRB, descobriu que Caetano Rípoli era filho do famoso Romeu Ítalo Rípoli, presidente do E.C.XV de Novembro. E foi a festa.
Pois o presidente do CRB, todo assanhado, quis porque quis, insistiu e grudou no Caetano, pedindo que interferisse junto ao pai para emprestar alguns jogadores do XV para o time de Alagoas. Solícito e querendo prestigiar o filho hóme, Rípoli enviou três atletas para o CRB, convencido de que, assim, colaboraria para Caetano aumentar ainda mais suas relações alagoanas. Entre os jogadores, estava o Joãozinho Paulista, que Romeu Rípoli inventava ser o "sucessor de Pelé?, só que era reserva no time do XV. E Joãozinho se tornou artilheiro do campeonato alagoano. E ídolo da torcida.
O valor do empréstimo não estava sendo pago pelo CRB e Rípoli não pressionava muito. Mas sabia que o XV, pelo Campeonato Nacional (antigo Brasileiro) iria jogar em Maceió, justamente contra o CRB. E lá embarcaram todos, Rípoli e o time do XV para a terra onde Caetano morava. Toda a imprensa de Maceió foi recepcionar o polêmico presidente e sua famosa equipe. E Rípoli, ainda no aeroporto, mandou brasa: "Vim aqui em Maceió, pessoalmente, para ver o meu time dar uma sova no CRB e, também e especialmente, para cobrar o calote que estou levando do presidente dessa equipe pelo empréstimo do Joãozinho Paulista.?  Foi um fuá. E Caetano Rípoli enlouqueceu, pensando no que haveria de acontecer para ele e sua família, assim que o valentão do pai se fosse embora. Afinal de contas, Maceió é terra de gente valente, com "peixeira? na cintura.
Caetano, tremendo, tentou conter o papai Romeu: "Pai, você está em Alagoas. Você já ouviu falar em peixeira, em machismo alagoano, em honra de cabra macho? Eu moro aqui, caramba! E se eles vierem por cima de mim?? Mas Rípoli, o peito estufado e um sorriso maroto no rosto, entrou no carro do filho e falou: "Fique frio! Esta entrevista vai render para nós". E no noticiário da noite do Jornal Regional de Maceió saiu o ofensivo e provocante pronunciamento.
Não levou 20 minutos e lá estava o presidente do CRB esmurrando a porta da casa de Caetano Rípoli, filho do presidente valentão. O homem entrou bufando, nem sequer olhou para o dono da casa, mal cumprimentou Lucia e partiu para xingação pra cima de Romeu Rípoli. Que, enrolando o cigarrinho de palha, começou a gargalhar e desmontou o presidente machão do CRB.
E antes de se apresentarem formalmente, de se sentarem e tomarem uma cervejinha, Rípoli falou para o colega de Maceió: "Presidente, depois que nos conhecermos melhor aqui, você vai aos estúdios da TV Gazeta e desce o cacete em mim. Diga que a honra do CRB precisa ser lavada, mas sem violência. Que se lave essa honra lotando de torcedores o jogo no Estádio Rei Pelé. Teremos uma baita de uma renda, você me paga o que me deve e todos ficaremos felizes...".    
Não deu outra.  O jogo XV e CRB, que terminou com empate de 1 a 1, teve uma das maiores rendas daquele ano em Maceió. Rípoli voltou à Piracicaba, com o dinheiro que lhe era devido, e Caetano Rípoli foi empossado diretor de Esportes Náuticos do CRB, com direito a coquetel de apresentação e "oba-oba"...

Ripolianas 15
Autoria: Cecílio Elias Netto (www.aprovincia.com)
Mulher russa para aquecer jogador
Quanto mais passa o tempo, mais percebo e descubro quanto e como Romeu Italo Rípoli marcou Piracicaba. E o quanto e como também me marcou. A diferença de idade, entre nós, era de uns 30 anos, ele mais idoso. E, por isso, tanto aproveitei a sabedoria da malandragem que ele soube transmitir. E, por malandragem, entenda-se essa lei da sobrevivência a que a ferocidade atávica do ser humano nos obriga.
Brigamos muito, brigávamos. Um dia, quando brigados, Rípoli entrou na minha sala de O Diário, já puxando do bolso a palha e o fumo de corda, me deu a lição, que aprendi, de relações humanas e de reconciliação. Falou: "Turquinho. Na vida das pessoas, a Terceira Lei de Newton é o modelo: bateu, levou. Se você me der um tapa, eu lhe devolvo outro. Se me der um carinho, eu lhe faço outro.?  E me abraçou e me beijou no rosto. E eu, pela lei de Newton, o abracei e lhe beijei o rosto.
Rípoli era sábio. E, por isso mesmo, malandro. Ora, quando se vê a situação calamitosa do glorioso XV de Novembro nestes últimos tempos ? já seriam décadas? ? chega a ser ridículo observar o amadorismo dos que tentam dirigi-lo, não conseguindo fazer o Nhô Quim retomar à sua tradição de respeito. No futebol ? como na vida ? é preciso conhecer e aplicar a ciência da sobrevivência. Pois há uma arte de viver e uma ciência de sobreviver. Rípoli conhecia as duas, ciência e arte. Por isso, ele sabia ser generoso e cruel, cafajeste e cavalheiro, malandro e ingênuo. Mas honesto, eis o que as últimas gerações não entendem: a malandragem é arte, jogo, não a desonestidade escandalosa, pérfida, criminosa.
Rípoli, esperto e malandro, conhecia a vida, como arte de viver, como ciência de sobreviver. O Caetano, o Caeta, lembrou-me do que aconteceu lá pelos idos de 1964. O Brasil, em 1962, tornara-se Bi-Campeão do Mundo de Futebol, a era de Pelé. E o mundo queria conhecer, aplaudir, extasiar-se com o nosso futebol. Rípoli tinha visão universal. E decidiu que o XV deveria estar, naquela globalização, entre os poucos clubes que excursionavam, especialmente o Santos de Pelé, o Flamengo, sucessos garantidos na Europa.
Rípoli era marqueteiro, quando poucos falavam em marketing no Brasil. Acabou realizando a memorável excursão do Nhô Quim à Dinamarca, Suécia, Alemanhas (as duas de então, a Oriental e Ocidental), Polônia, repúblicas da então União Soviética, o XV jogando na Rússia, Karjastão, Usbekistão, Moldávia, Ucrânia, quem pode avaliar isso, hoje? Ninguém resistia a Romeu Italo Rípoli, ítalo de passionalidade, Romeu de romances, Rípoli de mistérios de Trípoli, sei lá, eu, que morro de saudade dele.
Pois bem. Era fim de inverno na Europa.  E o time do XV, nos primeiros jogos, começou a levar dois, três gols, ainda no primeiro tempo. Os jogadores ficavam, literalmente, gelados em campo, tiritando de frio. Mas, no segundo tempo, reagiam, entrando fortalecidos em campo, valentes, alegres, animados. E conseguiam, quase sempre, equilibrar o jogo, empatando e até vencendo. Qual o mistério, qual o segredo?
Rípoli, inteligente e sem acreditar em macumba, intrigou-se com a transformação de seus atletas ? quase todos pobrezinhos, chamados de "bando de negrinhos"? que se transformavam em heróis após cada intervalo de meio-tempo. Para se ter uma idéia do elenco, houve um formidável craque quinzista com o nome de Dito Cueca, que Rípoli, em outros tempos, ia tirar da cadeia em véspera de jogo importante, pois Dito era sempre apanhado pela polícia completamente embriagado ou maconhado. Mas na Rússia da União Soviética, tudo era diferente. O que acontecia com a transformação dos jogadores? E, então, Rípoli, num dos intervalos, deixou a tribuna de honra e resolveu ir ao vestiário de seu time. E descobriu a razão do milagre, a fórmula da recuperação, os segredos da excelência do preparo físico russo e da força da raça quinzista.
Era simples: os jogadores quinzistas, o "bando de negrinhos", faziam "aquecimento" com as torcedoras dos times soviéticos, mulheres russas que se encantavam com a cor negra dos brasileiros, digo, dos piracicabanos, digo, dos caipiracicabanos. As moças e mulheres adultas, nos intervalos de cada jogo, entravam nos vestiários quinzistas ? todas elas encapotadas, lenços nas cabeças ? e iam agradar, em todos os sentidos, os nossos jogadores. Levavam garrafas de chá quentíssimo, com bolachas e com agrados gentis. Os jogadores ficavam encantados, divertiam-se no breve intervalo, voltavam correndo para o campo com a certeza de que a festa com as russas teria também o segundo tempo.  O presidente do XV lavou as mãos e parodiou D.Pedro I: "Se é para o bem do XV e felicidade geral de Piracicaba, fiquem..."
Até antes de morrer, Ripoli não conseguiu entender a rapidez com que tudo acontecia, a técnica de seus jogadores em driblarem aqueles longos e grossos vestidos russos, festa e alento de 15 minutos milagrosos. Caetano, que estava por lá, também nunca entendeu.
Eram, por intervalo, quatro ou cinco mulheres eslavas para fazer a alegria de 22 jogadores, mulheres maravilhadas com a cor da pele de cada "negão". No último jogo, em Gävle, já na Suécia, a partida pegou fogo depois do intervalo do primeiro tempo. E terminou com o placar de 5 a 5. É bom lembrar que Gävle fica quase no círculo polar ártico...

Basquete por Futebol

Wlamir Marques, campeão mundial de basquete pela Seleção Brasileira em 1959 e posteriormente bicampeão mundial em 1963, aceitou a proposta do então presidente do Corinthians, Vicente Matheus e veio jogar no Parque São Jorge.
Mas antes, precisava do aval do seu time, o XV de Piracicaba, que tinha um time fortíssimo de bola ao cesto. O diretor do departamento de basquete era o empresário Dovilio Ometto (ex-presidente das industrias Dedini) que consultou o presidente do clube, Romeu Ítalo Ripoli. 
Rípoli, matreiro, inteligente, em contra-partida pediu em troca um jovem atacante do time de aspirantes do Timão, o jovem Ubiracy. O mandatário piracicabano conhecia muito bem o potencial do jogador, pois era apreciador do estilo voluntarioso do centroavante.
As informações foram obtidas via os historiadores do XV de Piracicaba Fernando e Rubéns Leite do Canto Braga.

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