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Entrevista do jornalista Maurício Sabará com Lígia Silva, medalhista de prata por equipes nos Jogos Pan-Americanos de 2015

Entrevista do jornalista Maurício Sabará com Lígia Silva, medalhista de prata por equipes nos Jogos Pan-Americanos de 2015

MAURÍCIO SABARÁ: Lígia Silva, você é nascida em Manaus, capital do Estado de Amazonas. Com 13 anos pretendia ser nadadora, mas devido à falta do professor resolveu mudar para o tênis de mesa. Conte sobre esse início.

LÍGIA SILVA: Bom, meu início no tênis de mesa foi totalmente por acaso. Quando era mais nova era muito danada! E lá em Manaus tem a Vila Olímpica do Amazonas!
Vivia nas ruas correndo, brincando (taco), apostando corridas! Enfim, infância maravilhosa! Certo dia minha mãe falou assim: “Você tem q fazer algum esporte. Amanhã você vai lá na vila e só volta pra casa com alguma matricula, senão vai apanhar”! No outro dia acordei cedinho e fui atrás dá matrícula! Mas queria muito era fazer natação! Nesse dia o professor faltou e a única vaga que tinham era tênis de mesa! Então pensei que para não apanhar tenho que ir pra casa matriculada no tênis de mesa!
Fui treinando e competindo em torneios no Estado e ganhando. Depois disputei competições nacionais e ganhando também. Recebi um convite em 1997 e falei pra minha mãe. Ela não deixou vir pra Santos. Em 1998 falei para minha mãe queria ir em busca dos meus sonhos. Ela deixou. Mas primeiramente ela falou que eu deveria estudar. Vim e comecei a ganhar em Santos também. E fui treinando cada vez mais!
Quando cheguei, disputava Campeonato Paulista no sábado, apanhava e não via a hora de chegar na segunda pra treinar! Treinando, treinando. Em 1999 fui para os Jogos Pan-Americanos! Foi aí que pensei: “Posso ir longe”.


MS: Sentiu dificuldades inicialmente no esporte? Deu preferência à um estilo de jogo e raquete ou preferiu seguir as orientações do seu professor da época?

LS: Muitas dificuldades, aliás, todas! Não tinha tênis! Muitas vezes treinava descalça!
Não tinha bolinhas, amassava, levava para casa para colocar na água quente para desamassar! Treinava com aquele tênis da escola. Para treinar, não tinha dinheiro para a passagem de ônibus! Passava por debaixo da catraca! O local era aberto e tinha vento.
Muitas vezes ia a pé para treinar, 50 minutos para ir e 50 para voltar. Pegava carona com colegas de treino. Enfim, apesar de tudo, nunca passou pela minha cabeça desistir, porque dentro da minha casa tinha uma mulher guerreira (mãe). Ela foi e é meu exemplo. E minha maior herança foi a Educação que ela me deu!


MS: Houve algum (a) mesatenista que te espelhou?

LS: Hugo Hoyama.


MS: Com apenas 17 anos sai de Manaus para morar em Santos, visando se aperfeiçoar no esporte. Foi uma decisão fácil, sabendo que ficaria longe da sua família?

LS: Não, nada fácil. Mas tinha um sonho dentro de mim, que era participar de uma Olimpíada. E graças a Deus consegui, participando de 3!


MS: Qual foi o benefício que essa mudança de cidade e de estado te trouxe?

LS: Tinha que estar no polo principal do tênis de mesa junto com os melhores para me aprimorar e disputar competições grandes. Mas nunca esqueci minhas origens. Pobre daqueles que as esquecem! Estando em SP, poderia todos os finais de semana estar disputando com as melhores jogadoras! De SP você pode ir para qualquer lugar do Brasil, estando mais centralizada. E as passagens aéreas eram muito caras! Em SP pude participar de todas as competições da modalidade! E mostrando o meu trabalho! Mas quando mudei pra SP, coloquei na minha cabeça que não queria ser mais uma, mas sim ser alguém na vida! Foi aí que em 1998 recebi o convite para vir para Santos! Em 1997 foi de Santos também, mas minha mãe não deixou. Então no ano seguinte pensei que tenho que ir. E estou em Santos até hoje. A cidade me apoiou em tudo e até hoje me apoia. Me formei no ano de 2004 em Educação Física, trabalho no Centro Esportivo Dale Coutinho e no Colégio do Carmo, treinando também. Defendo a cidade de Santos nos jogos regionais e abertos.


MS: Foi a partir daí que foi convocada pela Seleção Brasileira Juvenil. Relate esse momento tão importante da sua carreira.

LS: Fiquei muito feliz. Na minha cabeça, poxa, estava dando certo. Minha escolha e meu trabalho! Posso seguir treinando para realizar meu grande sonho!


MS: Sua primeira participação internacional de destaque aconteceu nos Jogos Pan-Americanos de 1999 em Winnipeg. Gostou da sua participação?

LS: Sim, muito! Mas fiquei só tirando fotos com os outros atletas, daqueles que ganhavam medalhas para o Brasil. Pensei: “Tenho que ganhar uma também, para as pessoas tirarem fotos comigo também. Coisa de menina nova. Acordei na última disputa por medalhas (equipes). Poxa, hoje tenho que trazer uma medalha mesmo, que seja de bronze e ganhei! Cheguei correndo na Vila Olímpica (Vila dos Atletas). Parecia que tinha ganho uma de ouro. Mas, enfim, todos queriam tirar fotos comigo (risos).


MS: Em 2000 participa pela primeira vez dos Jogos Olímpicos, a competição mais importante de esportes. Eles ocorrem em Sidney (Austrália), com você se tornando a primeira brasileira a disputar um torneio individual olímpico. Um motivo de muito orgulho.

LS: Nossa, a realização do meu grande sonho! Estava lá sonhando, um grande evento que acontece de 4 em 4 anos. Treinei muito pra ir bem. Mas mantive meus pés no chão.


MS: Por três vezes ganhou o Campeonato Latino-Americano Individual (2006, 2009 e 2014), a competição mais vitoriosa da sua carreira. Qual foi o mais inesquecível para você e por quê?

LS: Uma das minhas metas era me manter por 10 anos como primeira do Brasil, o que não foi fácil, pois nunca falei que sou a melhor. Graças a Deus jamais pensei só em mim, por ser um esporte individual. Minha mãe sempre falou para mim: “Seja uma pessoa boa pra mais tarde as pessoas lembrarem de você pelas coisas boas que fez”. Sempre tive isso em mente, ser uma pessoa humilde, correta, sincera, sem vaidades! Isso substitui qualquer troféu que você possa ganhar na vida. E cada passo que fui dando aqui, lembrava da minha mãe. Em 2014, no mundial por equipes, conseguimos subir pra primeira divisão, algo que não acontecia desde de 1950. O mais inesquecível pra mim foram os Jogos Pan-Americanos 2015 em Toronto (Canadá), pela forma que todas ali estavam com comprometimento a fazer história para o tênis de mesa feminino!


MS: Você tem um histórico de participações muito bom em Pan-Americanos, estando presente em 2003 (Santo Domingo, República Domicana), 2007 (Rio de Janeiro, Brasil), 2011 (Guadalajara, México) e 2015 (Toronto, Canadá). Independente da colocação, com certeza o do Rio foi o mais inesquecível, por ser em nosso país.

LS: Sim, meus pais, meu idioma, minhas origens. Você saindo da arquibancada, as pessoas torcendo por você, entendendo aí o que outras pessoas querem passar. Isso nos contagia, criando outra atmosfera para enfrentar qualquer dificuldade. Enfim, nossa torcida calorosa com uma grande paixão.


MS: Teve também muitas participações nas Olimpíadas, participando em 2004 (Atenas, Grécia) e 2012 (Londres, Inglaterra).

LS: Participei em 2000 (Sidney), 2004 (Atenas) e 2012 (Londres)! Nas duas primeiras era muito nova, mas só por estar ali já era pra mim minha medalha de ouro. Em 2012, mais madura e com grande cobrança particular. Mas fiz de todas uma grande oportunidade.


MS: Trocaria suas três participações em Olimpíadas pelos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016?

LS: Claro, não há dúvidas! Mas, como falei, não tenho vaidade e rancor por deixar de ir, longe disso. Sou uma pessoa que tenho muita fé. Amém! Isso não me deixa ser assim. Coisas pequenas não me contagiam. Muito pelo contrário, não fui, mas torci para aquelas que foram. DEUS SABE O QUE FAZ SEMPRE! AMÉM. Sem rancor e sem mágoas. Pensei, poxa, já passei por tanta coisa na vida, fechei um belo ciclo e comecei outro.


MS: O título mundial por equipes da Segunda Divisão de 2014 foi a maior conquista da sua carreira?

LS: Sim, e Toronto 2015 pelo comprometimento de todas que estavam ali!


MS: 2015 foi provavelmente o seu ano mais vitorioso no tênis de mesa, pois foi campeão por equipe e dupla no Latino-Americano, por equipes no Aberto de Luxemburgo e vice-campeã por equipes nos Jogos Pan-Americanos ao lado de Caroline Kumahara e Gui Lin. Já era considerada uma atleta veterana. Foi a melhor fase técnica da sua carreira?

LS: Sim, uma das fases mais vitoriosas da minha vida! Mas sempre treinei muito para estar pronta para as oportunidades da vida.


MS: Qual foi o jogo da sua vida? Teve alguma adversária que tenha mais admirado?

LS: Não tenho, porque não encerrei minha carreira. Tenho alguns memoráveis. Todos os jogos do Mundial de 2014 por exemplo. Como falei, sou uma pessoa que vou muito pelo caráter! Então todas aquelas que me fizeram treinar muito só tenho que agradecer, pois sem elas não poderia chegar a lugar algum.


MS: Faça um rápido paralelo dos clubes que jogou.

LS: Só joguei em Santos. Isso me ajudou muito, ter uma estabilidade, não ficar pulando de galho em galho. Ficar e fazer história.


MS: Tem interesse de ser técnica?

LS: Vamos com calma. Sou assim, tenho que estudar pra ser. Fiquei 21 anos jogando pela Seleção Brasileira, o que não dizer que vou ser uma boa treinadora. Quero estudar para me tornar. Já sou formada em Educação Física. Agora é só estudar os níveis da ITTF e aproveitar as oportunidades. Foi isso que fiz da minha vida e quero esta pronta.


MS: Como vê o futuro do tênis de mesa do Brasil?

LS: Bom, não só o tênis de mesa, mas todos os esportes são questões de cultura.
Temos quer ser otimistas e correr atrás dos grandes planos, tendo comprometimentos.

 

Apresentação da mesatenista Lígia Silva no Sindiclube em 2016, com participação do jornalista Maurício Sabará:

http://blog.sindiclubesp.com.br/atletas-ensinam-pratica-a-jornalistas-em-curso-sobre-tenis-de-mesa/

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