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Era conhecido como "O Fitinha Roxa" por causa do adorno que usava na cintura

Era conhecido como "O Fitinha Roxa" por causa do adorno que usava na cintura

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

Em uma tarde carioca de 1913, entre aplausos frenéticos da multidão e o delírio de torcedores entusiasmados, conforme ela recordaria décadas depois, Anna Amélia viu pela primeira vez o homem com quem compartilharia o resto de sua vida

Com uma camisa e calção branco, com uma faixa também branca a amarrar a chuteira e uma fitinha roxa enrolada na cintura, o goleiro do América atraía a atenção e os olhares da maioria dos torcedores e, mais ainda, das torcedoras.

"Fiquei grávida de emoção", afirmaria ela anos depois sobre o momento em que Marcos de Mendonça, do alto de seu 1,87m, se aproximou para conversar com um grupo de garotas na arquibancada – Anna Amélia no meio – no intervalo da partida.

Naquela época, o futebol era amador e elitista, e as primeiras marias-chuteiras, moças bem nascidas que se empolgavam com aquela nova moda europeia, escreviam versinhos para transmitir aos ídolos seu encantamento.

Anna Amélia começava assim um dos poemas que fez para o goleiro:

"Foi sob um céu azul, ao louro sol de maio / Que eu te encontrei, formoso como Apolo / E o meu amor nasceu, num luminoso raio, / Como brota a semente à umidade do solo."

Não demorou para Marcos de Mendonça se apaixonar por aquela torcedora. Antes e depois das partidas, ele tomava um bonde e passava na frente da casa dela, na estrada da Tijuca, só pela minúscula possibilidade de vê-la na janela. Algumas vezes, conseguia; outras, não. Eram assim os flertes com as moças de família no início do século passado.

A sorte no amor transbordou também para dentro do campo, e o goleiro ajudou o América a ser naquele ano campeão carioca pela primeira vez. No ano seguinte, em 1914, Marcos atuou no primeiro jogo oficial da seleção brasileira, contra o Exeter City, da Inglaterra.

Uma briga com a diretoria do América o levou ao Fluminense, clube que ele defenderia por 12 anos e pelo qual torceria pelo resto da vida. Anna Amélia estava sempre lá para vê-lo jogar.

No final de 1915, eles decidiram transformar os flertes em casamento. "Durante quase três anos, foi o nosso idílio uma romântica inclinação sentimental, uma afeição sustentada apenas pela imaginação, incapaz de expansões e atitudes definitivas", descreveu ela.

Casaram uma semana antes do Natal de 1917. Alguns meses depois, o pai dela, um rico industrial dono de uma usina siderúrgica em Minas Gerais, morreu. O goleiro foi convidado a assumir os negócios da família. Isso, além de alguns problemas físicos, o fizeram abreviar a carreira. Ainda teria tempo, porém, de ser tricampeão carioca pelo Fluminense e conquistar o título sul-americano com a seleção brasileira.

A primeira poeta do futebol

Anna Amélia Queiróz de Carneiro Mendonça é apontada por críticos como a primeira a trazer o tema do futebol à poesia nacional. Seu poema O Salto, que descreve a postura e os movimentos de Marcos de Mendonça durante um jogo, é considerado o primeiro do país a abordar o futebol.

A relação de Anna Amélia com o esporte já era antiga e nascera mesmo antes de ela conhecer o goleiro do América. Ela começou a jogar futebol antes dos 15 anos, no interior de Minas Gerais, depois de traduzir um livro de regras e importar bolas da Europa.

Ela ensinou o esporte aos filhos dos operários da fábrica do pai. Dizem que se irritava quando os moleques davam chutões para o alto para exibir força. "Ela achava que o futebol devia ser jogado no chão, com paciência e inteligência", afirma Márcia Helen, sua neta, que conviveu com a avó até o fim de sua vida.

Ela também era uma mulher incisiva, idealista e, às vezes, explosiva. Feminista, defendia que as mulheres deveriam ter direito ao voto. Fundou a Casa do Estudante do Brasil, uma instituição para acolher no Rio jovens que não tinham condições de se manter na então capital do país.

Fluente em alemão, francês e inglês, foi tradutora de poemas estrangeiros. Ela deu à luz a futura crítica de teatro Barbara Heliodora, que ganhou da mãe seu primeiro exemplar de uma obra de William Shakespeare. Hoje, Barbara é maior especialista brasileira na obra do Bardo.

A fitinha roxa

Marcos de Mendonça foi o primeiro "ídolo" do futebol brasileiro porque encarnava todos os valores que o esporte carregava naqueles primeiros anos. Não gostava de sujar a roupa sempre muito branca, não gostava de violência, era sempre leal e recebia aplausos até de adversários.

Era conhecido como "O Fitinha Roxa" por causa do adorno que usava na cintura – a fita ajudava a segurar o calção em uma época em que o elástico ainda não havia sido inventado.

Anna Amélia, dois anos mais nova que Marcos de Mendonça, sempre dizia à família que, caso morresse antes dele, gostaria de ser enterrada com a fitinha roxa, a mesma fitinha que o marido usara durante a carreira.

No final de março de 1971, ela morreu. Sua filha Barbara, suas netas Marcia e Patricia e a família inteira reviraram a casa inteira atrás da fitinha para colocar dentro do caixão. Nunca a encontraram. Anna Amélia foi enterrada com uma foto do marido, vestido de branco – e de fitinha roxa.

A partir daí, e pelo resto da vida, Marcos de Mendonça só se vestiu de preto. Em casa, na rua, nos campos de golfe, seu esporte da velhice, e durante os jogos do Fluminense que ele via pela TV, nunca estava com roupas de outra cor senão a preta. Até 1988, quando morreu, o primeiro goleiro do Brasil jamais se despiu do luto pela mulher que o futebol lhe apresentou.

Foto: UOL

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