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Entrevista do jornalista Maurício Sabará sobre taekwondo no Sesc Pompéia

Entrevista do jornalista Maurício Sabará sobre taekwondo no Sesc Pompéia

MAURÍCIO SABARÁ: Natália, você nasceu na cidade de Maringá e começou a treinar taekwondo em Londrina. Conte como foi o seu início, de ter se interessado pelo esporte e se no Paraná a arte marcial tinha muitas academias para treinar.
NATÁLIA FALAVIGNA: Desde os 4 anos queria ser atleta, disputar um Campeonato Mundial e ir aos Jogos Olímpicos, algo que já comentava com minha mãe. Na época não imaginava como sair de Londrina e chegar a uma grande competição. Então comecei na escola como toda criança, praticando os esportes tradicionais que são oferecidos como futebol, vôlei, handebol e basquete, mas eu tinha interesse mais por esportes individuais. Depois fiz tênis, natação e atletismo. Com 14 anos, uma amiga que estudava inglês comigo me chamou pra ver um treino de taekwondo em uma academia que era do lado da minha casa, no fundo de uma ótica, era bem pequena mas tinha grandes atletas, comecei a treinar e já na terceira aula meu treinador disse pra eu continuar, porque dentro de dois anos seria campeã mundial pelo potencial que tenho, o que achei o máximo pois era tudo que queria ouvir. Acabou acontecendo como ele disse, fui para a competição e o Brasil conquistou seu primeiro título no taekwondo, sendo eu a primeira campeã mundial do país, percebendo que estava envolvida com o esporte.

MS: Em sua primeira competição internacional no ano de 2000 sagrou-se campeã! Relembre essa grande conquista.
NF: Minha primeira competição foi esse Campeonato Mundial na Irlanda. Não conhecia muita coisa no taekwondo, tinha pouca técnica, pois foi bem rápido o meu começo, querendo logo competir, sem a formação tradicional, chegar à faixa preta e participar depois de competições importantes. Mas eu tinha muita vontade, era focada, motivada, confiava em mim, conseguindo assim moldar o meu caráter neste sentido, gostar de grandes desafios, que me fez ganhar as próximas lutas com excelentes adversárias de países como a própria Irlanda, Alemanha, Taipei e Croácia, me tornando vitoriosa, algo que as pessoas não esperavam, o que foi muito bacana.

MS: Em 2004, quando disputou sua primeira Olimpíada em Atenas, não conquistou o ouro! Mesmo não ficando em primeiro lugar, foi uma experiência gratificante?
NF: Em 2004 foi uma experiência muito gratificante, queria conquistar a medalha de ouro, sabia que tinha condição mesmo as pessoas não me conhecendo muito. Sempre tive força no cenário internacional, permanecendo no pódio. Mas era bem jovem, perdi o bronze, cheguei até o processo e, se fosse como é atualmente, teria conquistado. Quem me venceu foi a venezuelana Adriana Carmona, uma atleta que na época tinha 37 anos, muito experiente, tendo participado de vários Mundiais e Olimpíadas. Foi bastante gratificante, apesar de ter sido um momento difícil, a primeira grande derrota na minha carreira, pois esperava muito mais, mas tive muitos ensinamentos, porque logo depois foi isso que fez me tornar campeã mundial em 2005.

MS: O título mundial de 2005 foi sua maior alegria no taekwondo?
NF: Foi uma das maiores alegrias da minha carreira por causa da mudança de paradigma, o impacto que tive no taekwondo, nas artes marciais, a participação das mulheres na luta foi muito grande, então de certa forma fui a pioneira junto com outras da mesma geração. A mudança de mentalidade, o impacto, perspectiva de investimento que os órgãos do esporte tiveram, algo gigantesco, o que me dá orgulho ver como o taekwondo está atualmente, sabendo que fui uma das responsáveis por isso.

MS: Qual foi a sensação de ter disputado os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro em 2007? Mesmo ficando com a medalha de prata, foi um momento marcante na sua carreira?
NF: Os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro foram muito marcantes, pude fazer o juramento do atleta na Abertura, são coisas que te marcam muito, sendo escolhida como representante para uma competição deste nível. Pela primeira vez minha família esteve presente, com pai, mãe, tios e avó, algo muito legal, as pessoas gritando e torcendo. Fiquei com a medalha de prata perdendo para uma grande atleta mexicana, uma das principais adversárias da minha carreira, tínhamos disputado a semifinal do Mundial que ela foi campeã. Tenho muito orgulho de ter participado e honrado para familiares, amigos e o Brasil, representando bem, fazendo por merecer a prata.

MS: Nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, foi eliminada contra a atleta norueguesa por causa de um ponto no Golden Score! Considera injusto e decepcionante?
NF: Não considero injusto e decepcionante, são pontos de vista, as coisas não mudam e mesmo se considerasse não mudaria. O esporte é isso, ter essas possibilidades, ela foi melhor na disputa do Golden Score pelos critérios que na época eram consideráveis, a medalha de bronze veio num momento importante e marcou minha carreira. Olho sempre pelo lado positivo das coisas, tenho total responsabilidade pelos erros, acertos e gratificações que tive na minha trajetória, não jogando pra ninguém, pois deve ser importante entender o que não acontece na vida, levantar a cabeça e continuar. Entendo a medalha como algo positivo tanto pra mim como para a modalidade.

MS: Nas Olimpíadas de Londre (2008), quando treinava no Fluminense, foi eliminada na primeira fase pela atleta coreana, do país que surgiu o esporte, fraturando o tornozelo direito. Você teve outras contusões ao longo da carreira, ainda mais por ser um esporte de contato?
NF: Tive lesões na minha carreira por ser a primeira atleta brasileira de taekwondo a viver profissionalmente. Pelo fato de ser a pioneira, tenho que me ajustar, servindo como cobaia. Estipulei parâmetros bastante altos para os atletas que viriam a seguir, acontecendo porque a modalidade passava por um momento de transição de regras, constância de adaptação e em algum momento o atleta acaba sofrendo com isso, não sendo diferente comigo, tendo outras contusões.

MS: Na tão aguardada Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro, por causa de lesões, não pôde disputar, sendo comentarista da Sportv! Decepção? O que achou do desempenho dos brasileiros no torneio?
NF: Com relação às Olimpíadas de 206, achei que os atletas tiveram boa participação, conquistaram uma medalha de bronze, dois lutadores avançaram duas lutas, tinham condições de avançar entre os 16 primeiros. O taekwondo por ter só quatro atletas, motiva um padrão avançado, não só nesta Olimpíada, mas também nas edições passadas, pois pelo potencial que temos no Brasil, podemos conseguir mais, sendo possível algum trabalho e planejamento, ter uma estratégia definida para conseguirmos galgar melhor os espaços. Temos bons talentos, mas precisamos transformá-los em realidade.

MS: Pretende disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio?
NF: Não pretendo disputar, já que fiz a minha transição, tendo interesse de contribuir agora pelo lado de fora. O desafio maior do taekwondo hoje passa pela gestão e administração das entidades esportivas, então acho que é a possibilidade de contribuir com um legado grande, já fiz isso como atleta, mudei o paradigma, estipulei uma mentalidade diferente. Coloquei outros objetivos que até antes ninguém tinha conquistado, algo que consigo contribuir na condição que estou, fazendo com que o esporte cresça, que é o meu desejo principal, um desafio grande que me move.

MS: Quem foram os seus ídolos no taekwondo? Por ser um esporte de luta, considera recomendável para as mulheres? Qual o benefício que o esporte dá?
NF: Não tive muitos ídolos na época, pois o taekwondo não tinha projeção, buscando sim em outras modalidades, tendo depois referências internacionais que vieram com os passar dos anos. Sempre me espelhei em atletas vitoriosos no esporte. Fora do taekwondo teve a geração do vôlei campeã olímpica, Aurélio Miguel, Gustavo Borges, os atletas brasileiros que foram referência no período.
O taekwondo é recomendável sim para as mulheres, não é um esporte agressivo apesar do muito contato e mudou as regras justamente por isso. A prática esportiva é muito importante. As artes marciais trabalham muitas capacidades físicas como a força, coordenação, flexibilidade e respiração. Tem um ensinamento muito importante na filosofia, cortesia, autocontrole, espírito indomável, com você se tornando uma pessoa melhor através da prática esportiva. Também tem a parte da disciplina e pedagogia para as crianças. Os benefícios da prática das artes marciais são inúmeros. Hoje se estuda muito, ela pode ser usado tanto para cunho esportivo quanto para qualidade de vida. Sou suspeita pra falar, pois defendo tudo isso. Se as mulheres descobrirem as qualidades do taekwondo, teríamos um número bem maior de praticantes, pois dá ênfase ao abdômen, pernas, glúteos, quadris, tudo o que elas gostam de terem definidos, os benefícios estéticos.

MS: No taekwondo existem exercícios como o kata (karatê) e kati (kung fu)?
NF: Existem sim algo como o kata e kati que se chama poomse. O taekwondo tem várias vertentes e uma delas é o kyourugui. Já o poomse tem competições mundiais, será introduzido nos próximos Jogos Pan-Americanos e Olímpicos. Tem jogos na praia e áreas de exibição. É um legue maior de possibilidades e não somente a luta.

MS: Como você vê o futuro do taekwondo no Brasil?
NF: Vejo o taekwondo no Brasil com bons olhos, sempre acompanho, é possível mudar e fazer. Todo momento de crise gera uma mudança, então acredito que esses problemas que acontecem nos esportes e no país podem ter ensinamentos, basta as pessoas fazerem sua parte, se responsabilizarem e querer um bem maior e coletivo. Acredito que com um pouco de organização, mudança de mentalidade na gestão, um trabalho em longo prazo, todos os atletas, professores e treinadores tentando contribuir, teremos melhores frutos. As pessoas envolvidas no esporte precisam entender que o processo vem com passos pequenos e inconstantes. Tenho fé que o taekwondo possa melhorar, com perspectiva de se tornar uma grande modalidade em nosso país, tendo grandes talentos, com ídolos e massificado como o judô.

Fotos: Arquivo pessoal do colunista

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