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Ruschel tem a postura de um jogador como os outros, mesmo cansado de tantas entrevistas

Ruschel tem a postura de um jogador como os outros, mesmo cansado de tantas entrevistas

Luiza Oliveira
Do UOL, em São Paulo

Quem vê Alan Ruschel pela primeira vez, batendo bola e correndo de um lado para o outro no CT da Chapecoense, se pegar refletindo com ar de incredulidade: como alguém que sobreviveu a uma tragédia de avião pode estar inteiro e ainda por cima jogando futebol? O jogador é a materialização de um milagre.

À primeira impressão, o único sobrevivente do voo da Chapecoense que voltou a jogar parece não parar muito para pensar nisso. Treina normalmente com os colegas, deixa o campo para tomar um banho e volta sorridente para a entrevista. Antes de começar, tira sarro de todos os colegas que vão deixando o CT em um dia ensolarado de feriado. Tem a postura de um jogador como os outros, mesmo cansado de tantas entrevistas.

Mas por dentro, ele sabe que tudo está diferente a ponto de ter se tornado um atleta melhor que antes. "Como atleta, eu acredito que eu tenha melhorado, porque eu aproveito cada minuto que eu tenho dentro desse campo, né? Eu tive o risco de não poder mais andar, de perder os movimentos, então aproveito cada minuto que eu estou aqui no treino, cada minuto que eu estou no jogo e isso na vida também. Porque às vezes a gente chegava no treino com uma nhaca, como a gente fala, sem vontade de treinar, sem disposição para treinar. Então acredito que desde que aconteceu, eu sempre chego com ânimo, com vontade, porque é o que eu mais sei fazer e é o que eu mais amo fazer, então dou minha vida, porque isso me ajudou a voltar em alto nível e com certeza vai me ajudar muito mais ainda".

Alan sabe dar valor ao que tem e é grato por realizar duas vezes o sonho de ser um atleta profissional. O primeiro foi há dez anos quando subiu da base do Juventude. O segundo foi em 2017. Ao calçar as chuteiras, ele esquece a transformação maluca que a sua vida passou no último ano. Mas tudo vem à tona assim que coloca a cabeça no travesseiro.

"Quando estou em casa deitado, eu penso muito no que aconteceu, penso no que eu estou fazendo hoje, eu penso muito na minha vida quando eu saio de um jogo e um pouco antes de entrar também, quando eu estou ali pedindo, agradecendo a Deus por mais uma oportunidade, agradecendo por tudo que ele vem fazendo. É difícil não lembrar o que aconteceu, lembrar o que eu passei para estar ali também, então eu só agradeço a Deus por tudo".

Alan sabe que o presente que recebeu de defender as cores da Chapecoense novamente foi muito além do que poderia desejar. No acidente, ele teve uma séria lesão na coluna e voltar a andar já representava a sua maior vitória. Hoje, totalmente recuperado, não sente dor alguma e só lamenta a falta de ritmo de jogo, problema que ele pretende solucionar até o ano que vem.

Alan voltou a jogar em agosto no amistoso contra o Barcelona. Viveu momentos inesquecíveis nos 36 minutos em que esteve em campo. Saiu ovacionado e ainda ficou com a camisa de Lionel Messi. Outro momento emocionante foi em seu primeiro jogo oficial, no empate sem gols com o Flamengo pela Copa Sul-Americana, na Arena Condá. Mas o que mais o marcou foi pisar na Arena pela primeira vez depois do acidente no amistoso contra o Palmeiras.

"Foi o primeiro jogo depois de tudo, então foi um dia muito forte, muito emocionante. Ah, misturava muita coisa ali, né? Misturava muito sentimento ali, um sentimento bom de estar voltando, de estar vivendo e presenciando tudo aquilo e um momento de tristeza porque tinha família, tinha muita gente chorando, lembrança dos meus amigos que não estão mais aqui, então é uma mistura de sentimentos".

Aos poucos, ele vem reconquistando seu espaço no time. Seu esforço diário é deixar o rótulo de sobrevivente para trás e não ser tratado como `especial´ em campo. Ele só quer exercer sua profissão em pé de igualdade com os companheiros com a mesma competitividade e as mesmas cobranças.

"Eu acho que eu consegui ajudar a equipe em alguns jogos que eu joguei, principalmente quando eu voltei contra o Flamengo, né? Saí aplaudido pela minha volta e por aquilo que eu deixei dentro de campo, tanto que isso me deixou de titular em alguns jogos, né? Saí agora de titular, mas por opção tática, normal, tanto que eu estou indo para os outros jogos. Estou muito feliz com esse momento que eu estou vivendo", conta. "Sou um atleta normal como todo mundo, foi o que eu sempre deixei claro para eles, que eu não queria ser tratado como uma vítima ou como um cara que sobreviveu. Eu quero ser tratado como um atleta normal até por respeito a eles, né? Eles estão ali treinando todos os dias, assim como eu estou, então cada um busca o seu espaço, normal. A vida continua a de um atleta normal".

Mas Alan não conseguirá tirar a tarimba de especial, ao menos para os adversários que demonstram grande carinho sempre que o encontram em campo. "Acho que tem a admiração, sempre tem, eu fico feliz por isso, né? Acho que é isso que eu quero transmitir para as pessoas, eu quero ser um exemplo bom de superação, um exemplo bom de um cara que luta pela vida, luta pelo emprego, luta por tudo e eu acho que é isso que eu consigo passar para eles. Então, quando eu vejo os adversários, eles vêm e me abraçam, ficam felizes por mim, dão parabéns pela minha volta".

Casamento, gravidez e propósito de vida

Na vida pessoal, Alan quer formar uma família feliz com a sua noiva Marina. Eles estão fazendo os últimos preparativos para se casarem no próximo dia 9 de dezembro. Estão muito felizes, mas ainda tentam superar um baque. Marina estava grávida de uma menina e os dois estavam super felizes já preparando o enxoval. Mas a gravidez foi interrompida e ela perdeu o neném.

Ele tenta lidar da melhor maneira com o episódio. "A gente estava bem feliz com o momento e a gente, infelizmente, acabou perdendo o neném. Mas a gente precisa encarar a vida, uma das coisas que eu falei para ela... porque Deus me deixou aqui para alguma coisa, né? Então se Deus me deixou aqui, é porque tem alguma coisa para mim, se Deus não quis que ele viesse agora, é porque talvez não era a hora, vai vir um pouquinho mais para frente e é assim que a gente leva".

Hoje, ele pretende entender o propósito da vida. "Eu nunca questionei a Deus o porquê que eu fiquei aqui e eu peço sempre a Deus para que eu possa entender as coisas. É claro que a gente sofre um pouco, normal depois de tudo que aconteceu, tem a dor das pessoas que eram próximas, que a família não teve a mesma sorte que a minha família teve de ter eu aqui e a gente tenta confortar de alguma maneira, embora seja muito difícil tu confortar as pessoas que perderam, né? Então, como eu te falei, eu tento levar a minha vida assim porque tem pessoas que dependem de mim, que dependem do que eu faço".

Na profissão, Alan Ruschel sabe que não é mais um jogador iniciante. Está com 28 anos e pretende jogar apenas por mais 5 ou 6 anos. Depois, quer curtir a família e se afastar da rotina desgastante dos anos de futebol. Mas prefere não pensar nisso. Quer viver o hoje e só pensa em terminar o Campeonato Brasileiro e conquistar a vaga na Libertadores. O futuro deve ser mesmo na Chapecoense, já que está em processo de renovação de contrato com o clube.

Foto: CHAPECOENSE/DIVULGAÇÃO

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