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A história de Cafuringa, o ponta driblador que tentou ser ator e morreu ao levar uma pancada em um jogo-treino. Foto: Arquivo Estadão - retirada do UOL

A história de Cafuringa, o ponta driblador que tentou ser ator e morreu ao levar uma pancada em um jogo-treino. Foto: Arquivo Estadão - retirada do UOL

ADRIANO WILKSON
DO UOL, EM SÃO PAULO

No final dos anos 60 surgiu no Fluminense um jogador chamado Cafuringa. A origem do apelido nem aqueles que dividiram vestiários, campos de futebol e uma vida inteira com ele sabem dizer ao certo. Mas Cafuringa, ponta-direita daqueles que não se fazem mais, era rápido, vencia distâncias curtas em tempos de velocista, e ultrapassava seus marcadores driblando-os de maneira desconcertante.

Muitos chegaram a compará-lo a nomes maiores. “A habilidade dele era como a do Garrincha, um Garrincha sem glamour”, diz Zé Roberto, o ponta do Fluminense que jogava na esquerda. “Ele falava: `Eu vou passar desse cara assim´. E passava.”

Mineiro de Juiz de Fora, Cafuringa se acostumou a criar avenidas na direita do ataque do Flu, campeão carioca de 69, 71, 73 e 75. A torcida gostava dele. Mas no início dos anos 1990, enquanto jogava com seleção brasileira de másters, Cafuringa sofreu uma lesão que se transformou em uma infecção generalizada. Morreu alguns dias depois. Mesmo seus amigos mais próximos ainda veem as circunstâncias da morte como um mistério.

O UOL Esporte entrevistou ex-jogadores e parentes de Cafuringa que ajudam a contar a história de um dos atletas mais queridos do futebol brasileiros nos anos 70.

O craque sem gols

Cafuringa só tinha um problema: não sabia fazer gols. Sua incapacidade de balançar as redes virou proverbial. Ele fazia tudo certo. Driblava seu marcador, driblava a retaguarda, apontava o corpo em direção as redes, chutava e... errava o alvo.

Com o tempo, acabou criando um trauma, teorizam seus companheiros. “Ele tinha medo de fazer gol”, analisa Búfalo Gil, o homem que tomou seu lugar na ponta do Flu. “Em um jogo em BH contra o Atlético, o Rivellino meteu a bola nele, ele driblou o Atlético todinho. Driblou o [goleiro] João Leite, o gol tava livre para ele e ele resolveu dar a bola pra mim”.

Uma contagem informal entre seus amigos de futebol indica que em duas décadas de carreira Cafuringa não tenha feito mais de 20 gols. A maioria deles comemorados pela torcida tricolor como um acontecimento especial, raríssimo.

Um gol comemorado como título mundial

O economista Paulo Nogueira Batista Junior testemunhou um desses momentos. Assim ele o descreveu em um texto no jornal “Folha de S. Paulo” de 4 de março de 1999:

“Um dia, fui ao Maracanã assistir a um jogo importante do Fluminense. Estádio lotado, logo no começo da partida, o Cafuringa fez uma das suas: driblou todo mundo e isolou a bola. Toda a torcida do Fluminense (e até a torcida do outro time) levantava os braços para o céu (e Deus, lá de cima, respondia: calma, calma).

Aí aconteceu o grande momento. Pela enésima vez, o Cafuringa fez uma linda jogada e atravessou a defesa adversária inteirinha. O goleiro saiu do gol para fechar o ângulo, só que, dessa vez, o nosso ponta-direita colocou a bola exatamente no fundo das redes!

Vocês não imaginam a explosão. Foi uma coisa impressionante. É impossível descrever a emoção que tomou conta do Maracanã naquele instante. Foi tão forte, mas tão forte que, até hoje, mais de 20 anos depois, eu me emociono de novo ao relembrá-la. Quando o Cafuringa correu para o lado das arquibancadas em que estava a torcida do Fluminense e se ajoelhou, o estádio inteiro nadava em lágrimas.”

Quando os pontas começaram a ser mais cobrados por balanças as redes, Cafuringa e seu trauma de gol foram perdendo espaço. Ele foi vendido ao Atlético-MG e depois ao Deportivo Táchira, da Venezuela.

Ao lado de Pelé, era ele quem dava show

No fim dos anos 80, foi chamado pelo narrador Luciano do Valle para excursionar com a seleção brasileira de másters. Atuando com outros atletas aposentados, Cafuringa ficou conhecido por um novo público, aquele que começou a gostar do futebol vendo esses amistosos na TV Bandeirantes.

Passaram pelo time de Luciano tricampeões mundiais como Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho e Dadá Maravilha. Zico também costumava ser convocado. A seleção rodava o país em amistosos contra "lendas" de países como Argentina, Alemanha e Itália. Entre todos esses nomes estrelados, Cafuringa é sempre lembrado como aquele mais paparicado pela torcida que enchia estádios Brasil afora. O motivo: ele era quem garantia o espetáculo, com suas arrancadas impossíveis e dribles desconcertantes.

Arquivo pessoal

"Ele era alegria da seleção”, conta Búfalo Gil, que jogou a seu lado no time brasileiro.

“Era muito rápido, mesmo mais velho. Nunca bebeu, nunca fumou, então não perdeu o vigor com a idade. A velocidade ainda era impressionante. Os veteranos jogavam tudo a bola nele porque sabiam que ele chegaria”.

Descrito como um jogador do tipo “palhaço”, ele garantia também a alegria no vestiário após os jogos. “Era um cara extrovertido, mas ao mesmo introvertido”, lembra Gil. “Dentro do clube ele brincava com todo mundo, era um palhaço, mas fora ninguém sabia da vida dele. Só sabíamos que ele gostava muito de samba e era salgueirense”.

Boêmio, tentou carreira de ator

Em paralelo, por ser muito bem relacionado no Rio, Cafuringa fez pontas em novelas da Globo e pequenos filmes. Seu nome aparece nos créditos da novela Pacto de Sangue (1989), na qual interpretou um “rei do quilombo”.

Em uma entrevista à revista “Amigas e Novelas”, Cafuringa se mostrava empolgado com a carreira. “Antes mesmo da novela estrear eu já estou dando autógrafos”, dizia ele. “Todo jogador é um ator frustrado e vice-versa”, filosofava. “Todos gostam de futebol. Se duvidar até perdem o horário de uma gravação”.

Ele tinha planos de estudar atuação, falava em convites para participar da Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio, e planejava levar professores de teatro à escolinha que mantinha para meninos carentes.
Apesar da empolgação do jogador-ator, a novela não foi um grande sucesso da Globo. “Pacto de Sangue” marcou o retorno aos holofotes de um jogador muito querido pelo público, mas também foi o começo do fim de sua vida.

Contusão em jogo gerou grave infecção

Em julho de 1991, durante um jogo da seleção no interior do Rio, Cafuringa se chocou com um adversário e se lesionou. Seu filho Rodrigo, que tinha 15 anos na época, se lembra das circunstâncias:

“O cara deu uma pancada forte e ele caiu no alambrado, machucou a perna. Achou que ia ficar legal, mas dois dias depois foi para o hospital. Não parecia grave, mas lá ele descobriu que tinha tido uma hemorragia interna, e essa hemorragia se transformou em uma septicemia, uma infecção generalizada, e aí já não havia o que fazer”.

Depois de alguns dias de internação, Moacir Fernandes morria prematuramente aos 42 anos. A notícia chocou seus colegas e sua ex-mulher, que tinha mantido a amizade mesmo após o fim do casamento. “Até hoje eu me arrepio quando lembro”, disse Lúcia, a mãe de Rodrigo. “Foi uma morte muito repentina e nos deixou sem chão”.

Escolhas erradas e apostas em cavalos

Na época em que Cafuringa jogou, poucos atletas do futebol conseguiram juntar dinheiro. Os salários eram baixos e boa parte da renda vinha do “bicho”, a premiação por vitórias e títulos. Apesar de ter atuado por anos no Fluminense e no Atlético-MG, Cafuringa nunca conseguiu ficar rico.

Também sofria com escolhas erradas. Perdeu quase todo seu dinheiro em sociedades malfeitas e em apostas nos cavalos do Jockey Club.

Seu legado se mantém naqueles que lembram com saudade de seu futebol. Lateral-direito pentacampeão do mundo com a seleção, Cafu tem esse apelido porque diziam que ele era tão rápido quanto Cafuringa. O filho adotou o nome profissional de “Rodrigo Cafú” em homenagem ao pai. Ele até tentou seguir os passos no futebol, mas hoje é lutador e professor de jiu-jitsu.

O que dizem dele

"Ele era tipo o Garrincha, um jogador-show, de drible fácil, velocidade, só não gostava de fazer gol. Um cara super alegre. Surpreendeu muito quando soubemos da morte"
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Edu, ponta do Santos e da seleção de másters

"Eu dava carona de carro para ele ir pro treino e ele me tinha como um ídolo. No campo, era de uma velocidade impressionante. Ele ia e voltava quando a gente tava indo. Foi um grande sacana dentro do campo. Ele tinha todo aquele espaço e ganhava na velocidade, dizia que ia passar [do marcador] e o bicho passava mesmo"
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Samarone, atacante do Fluminense

"Naquela época, os pontas eram aqueles que iam no fundo e cruzavam ou participavam da armação das jogadas. Isso ele fazia muito bem. Não tinha cobrança por gols. Mas quando entrei, eu driblava pra dentro da área e batia. Comecei a fazer gols e mudou a história. Começaram a cobrar dos pontas a finalização. Ele foi perdendo espaço"
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Búfalo Gil, ponta direita do Fluminense

"Eu dei azar porque eu era ponta esquerda reserva. Nos treinos, às vezes ficava de lateral esquerdo. Era um desespero jogar contra ele"
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Zé Roberto, ponta esquerda do Fluminense

"Eu tinha 16 e ele 17 quando foi morar na minha rua. Era aspirante do Fluminense. Eu nunca tinha ido numa escola de samba na vida. Quando meu pai deixou, ele estava lá e começou a me paquerar. Acabou que namoramos. Foram oito anos de casamento"
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Lúcia, ex-esposa

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