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Levir Culpi acumula causos na carreira, de terremotos, rebaixamentos a eliminação na Libertadores. Foto:

Levir Culpi acumula causos na carreira, de terremotos, rebaixamentos a eliminação na Libertadores. Foto:

MARCELLO DE VICO E VANDERLEI LIMA
DO UOL, EM SANTOS (SP)

A história do "burro com sorte"

19 de março de 1989. Levir Culpi, então técnico do Criciúma, comandava o time em clássico contra o Joinville. O jogo chegava ao fim e o time catarinense perdia por 1 a 0. Foi quando Levir sacou um atacante (Chicão) para colocar um meia (Grizzo). Foi chamado de burro por um torcedor mais impaciente. O resto, ele mesmo conta:

“A lógica do torcedor: precisava empatar o jogo e você tira o centroavante. Que história é essa? Mas eles estavam muito fechados, com dois zagueiros em cima do Chicão. E aí passou pela minha cabeça: vou por um meia que entra driblando, talvez tenha mais chances. Passou pela minha cabeça, não foi treinado nem nada. Ai Grizzo entrou e fez o gol".

"Aí procurei aquele torcedor no alambrado, né? Cadê esse lazarento? Quando olhei, ele já veio com a frase: `Seu burro com sorte´. Olhei pra ele e admiti: esse cara tem razão".

Segundo Levir Culpi, somos todos burros no mundo. Alguns, como ele, com mais sorte do que outros. Gostou tanto da definição daquele torcedor que transformou a imagem em um livro. O título de sua autobiografia é justamente “Burro com Sorte”.

O importante, porém, é lembrar que estamos todos aqui para viver e aprender com nossos erros. Em mais de 50 anos de futebol, ele fez justamente isso. Já foi campeão, já foi rebaixado, já transformou jogadores promissores em ídolos e brigou com estrelas da equipe que treinava. Sempre com bom humor.

O UOL Esporte conversou com o hoje técnico do Santos. Ouviu casos, colheu opiniões, conversou sobre futebol. O resultado é essa entrevista. Divirta-se:

Os (bizarros) nomes na família

Livro nasceu em um tsunami

Em 2011, Levir era técnico do Cerezo Osaka quando um tsunami atingiu o Japão. Muitos dos estrangeiros que moravam por lá resolveram deixar o país. Levir ficou. E mais: começou a escrever um livro.

“Rapaz, deu tsunami e eu estava lá. Peguei o caderno e comecei a escrever na hora. Pensei que era melhor escrever antes que eu morresse. Queria deixar alguma coisa. Eu morava no 32º andar. O prédio todo começou a balançar e falei: `Ai meu Deus´. Sorte que o epicentro foi muito mais para o norte. Em Osaka não aconteceu muita coisa", conta.

“Mas isso me fez gostar ainda mais do Japão, pela união do povo depois daquilo que aconteceu. Eles querem tocar a vida porque é assim que tem que ser. Se um parar, todo o país para. Então eles não param, eles continuam”.

"Teve um tsunami, toda a população está reconstruindo o país, e eu vou pipocar agora? Vou voltar para o Brasil no meio da competição? Então falei para a minha comissão técnica: "Vamos ficar". O medo do terremoto existia, é claro. Brasileiro não é acostumado com isso. Mas não era o caso de voltar. Nós continuamos e a coisa logo, logo se normalizou. Pela desgraça que foi, não demorou muito e o país já estava recuperado
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Sobre a impressão após o desastre

"Para vocês terem uma ideia, tem uma cidade chamada Sendai. Por lá, as pessoas ficaram na última parte do aeroporto para se salvar. Cobriram tudo. Ficaram nos andares mais altos e se salvaram. Nós fomos jogar lá um mês depois e não tinha nada fora do lugar. Não percebia nada, um negócio impressionante. Parecia que não tinha acontecido nada. Então, realmente o povo é muito inteligente. Muito competente. É uma lição de vida
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Lembrando da reconstrução do Japão

Tem um ponto de interrogação depois de "burro com sorte"?

"Foi o editor que colocou isso aí. Por mim, não teria. Eu sei que sou um burro com sorte. Aliás, esse editor, que não sei quem é, eu quero matar. Se eu encontrar, mato o cara. Ele diminuiu a fonte do livro! Deveria ter duzentas e poucas páginas e ele conseguiu deixar com 170. Mas como fez isso? Com uma letrinha muito pequena. Ficou ruim de ler. Queria matar o cara, mas ele não aparece. Se aparecer, eu mato
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Sobre o livro

"Vou vender livro para quem? E pensei no hospital Pequeno Príncipe, lá em Curitiba, que é um hospital referência de criança. Quem tiver oportunidade de conhecer deve ir. É muito legal. Você não fica triste lá dentro porque eles conseguem manter um clima excelente. Então, a arrecadação toda vai para lá. E o livro custa 50 reais. Não é essa palhaçada de 49,99. É cinquentinha e pronto. Uma nota só
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Brincando sobre o preço

Brasil x Japão: Um pede desculpas. O outro fala palavrão

Renato Gaúcho, a praia e os estudiosos do futebol

"Quem precisa aprender, estuda, vai pra Europa... Quem não precisa vai para a praia. Futebol é como andar de bicicleta. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, vai estudar". A frase dita por Renato Gaúcho após a conquista da Copa do Brasil de 2016 foi, de certa forma, aprovada por Levir Culpi.

"O Renato Gaúcho é ótimo. Ele vive, né. Pois é... É um cara autodidata. Sabe o que fazer no jogo. Sabe o que falar para os jogadores. Agora, convenhamos: ele faz um curso, se organiza um pouco melhor", diz Levir. E, acredite, essa última frase não é uma crítica, mas uma comparação. Com o próprio Levir.

"Eu, por exemplo, sou um cara fraco em organização. Desorganizado Futebol Clube. Por isso tenho um assistente técnico que é um alemão, o Roberto Matter, e um preparador físico que é também alemão, o Rodolfo Mehl. E são alemãezinhos por que? Com alemão, é tudo pontual. Às 7h14 ele acorda, às 7h15 faz cocô, às 7h16 xixi, o café da manhã é 7h21 e às 7h27 eles saem para ir treinar. É assim. Enquanto eu fico sonhando, falando bobagem".

"Futebol é lúdico, sabe? Você tem que viajar para atingir as metas. Se for só matemática, não acontece nada. É o caso do Matter: ele faz tantas contas que fica difícil escolher. Se você precisa viajar para o Rio, ele dá sete opções, sabe quanto custa, por onde vai, qual o mais barato e o mais caro. Só que, de repente, ele escolhe o pior. Eu só aponto e acerto a viagem. Vou te contar: Deus sabe mesmo o que faz
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Comparando seu jeito desorganizado com o de seu auxiliar, Roberto Matter

"O Tite não é do futebol. O Tite é pastor"

Outro personagem de quem Levir tem uma avaliação inusitada é Tite. O técnico da seleção brasileira pegou um time em dificuldades, venceu nove jogos seguidos nas Eliminatórias e fez do Brasil o primeiro país classificado para a Copa do Mundo da Rússia. Mesmo assim, para o “contador de histórias”, o treinador não é, exatamente, treinador...

“O Tite não é do futebol. O Tite é pastor, é da igreja. É o Padre Tite. Você nunca viu o Tite falando? Olha, se ele não é pastor, foi seminarista. No mínimo. Ele tem o traço certinho...”, afirma, antes de um elogio mais sério: “Ele é um grande gestor de pessoas. Ele é ótimo”.

Naquele momento, Tite era a escolha ideal”.

“Havia um consenso para a escolha do nome dele. E a gente torce, porque por ele. O Tite é um cara do bem, mesmo. E, apesar de gaúcho, é um cara tranquilo”.

A frase de Levir tem a ver justamente com quem o ex-treinador do Corinthians substituiu na seleção: Dunga. “Sou fã do Dunga capitão da seleção brasileira campeã do mundo. Agora, capitão da seleção brasileira campeã do mundo é uma coisa. Técnico da seleção brasileira é outra. Naquele momento, eu achava que tinha que ser escolhido um cara que tivesse uma vivência maior, entende?”

Quando o burro ficou sem sorte
(ou porque ele colocou Noguera no ataque na eliminação da Libertadores)

O caso Leandro Donizete

Na partida em que o Santos foi eliminado, outra escalação de Levir chamou atenção: além de usar o zagueiro argentino Noguera como centroavante no fim do jogo, ele colocou o volante Leandro Donizete em campo desde o começo. Detalhe: o mesmo Levir já tinha chamado Donizete de “grosso” (brincando) quando os dois estavam no Atlético-MG: “Ele é meio grosso, mas gosto de vê-lo jogar. É eficiente”, falou em 2015.

Desta vez, porém, o técnico ressaltou o currículo (e não a falta de habilidade) do jogador. “Tem muita crítica em cima dele, mas ele era o único campeão da Libertadores no time. Tinham é de falar que `esse cara é fera mesmo, tem que ir, vai pro pau, já foi campeão, sabe como funciona´. A ideia era essa”.

“Mas os torcedores não queriam. Como o resultado ficou ruim, foram em cima do cara. É um reflexo. Eu falo o seguinte: se eu não tivesse trocado, se eu não tivesse feito as substituições, perderíamos por 3 a 0. Os torcedores acham que se eu tivesse feito outras coisas, a gente ganharia. Mas eu acho que iríamos tomar mais dois gols. Quem que tem razão?”

A decepção com a torcida do Santos

Três dias depois de ser eliminado da Copa Libertadores pelo Barcelona-EQU, o Santos recebeu o Atlético-PR na Vila Belmiro. Foi o público do ano em partidas do Campeonato Brasileiro no estádio: apenas 4.257 pagantes. Foi a primeira vez no torneio que o Santos pagou para jogar – o déficit do jogo ficou em R$ 30 mil.

“Eu não entendo o que aconteceu no jogo contra o Atlético-PR. O clima era de velório para jogar contra um dos melhores times do Brasil... E você chega e vê 3 mil pessoas nas arquibancadas. E dessas 3 mil, algumas foram só para xingar a gente. Que história é essa do Santos? Não entendo isso, cara”.

Cadê a torcida? Tapinha quando a gente vence é ótimo. Agora, a gente precisa de força, mesmo, é quando perde”.

“O ser humano precisa de apoio quando está em situação ruim. Comemorar todo mundo comemora. Quando perde é que tem que estar junto. O Santos saiu da competição com uma derrota. O Barcelona perdeu quatro. O Grêmio perdeu duas. Saímos quase invictos. E poderia sair invicto se perdesse nos pênaltis. São situações que se criam no futebol, mas alguns extremistas não aceitam”.

Lucas Lima fica ou sai do Santos?

"Um problema que ganhamos, que não existia no passado, foi a chegada do agente. Vamos considerar o Lucas Lima. Como o agente pensa? Só vou ganhar dinheiro se o Lucas for para outro time. Então, ele quer tirar o cara dali. É a profissão dele, vive disso. O caso do Lucas é um grau acima porque ele é um dos melhores jogadores do Brasil atualmente. É o seguinte: eu opto pela independência financeira ou por ficar aqui ouvindo os caras me xingarem quando o Santos perde um jogo? Isso passa pela cabeça dele. É bacana ver ele jogar e, se sair, vai fazer falta. Mas a gente tem que contar com isso no futebol. O Lucas Lima é um cara especial, sabe? Ele tem capacidade de decidir se quer ir ou não".

Bruno Henrique é "um pouco estourado"

"É fácil culpar as pessoas. Mas você precisa se colocar no lugar dele. O outro, às vezes, têm uma visão completamente diferente da sua. Ele também tem convicção de que está fazendo correto, que o que está fazendo é o que deve ser feito. Atualmente, temos no Santos um jogador chamado Bruno Henrique. Ele é ótimo, ótimo. Tem características muito boas. Mas é um pouco estourado, um pouco nervoso. Então, como técnico, não posso só dar porrada em cima, entende? Ele precisa entender o que está acontecendo para melhorar. Tem imagens, tem a conversa. Mas é ele quem tem de entender. Não adianta eu simplesmente tomar decisões. Quando ele entender a situação, vai ser bem melhor do que ele era".

Os atritos com Fred, Diego Souza e Ronaldinho

Técnico é profissão maldita

Aos 64 anos, Levir sabe que o fim da carreira já se aproxima. Mas ainda não sabe quando isso vai acontecer. “Eu já estou projetando alguma coisa. Mas aquela agulhinha não me picou ainda. Eu fico pensando nisso: para onde eu gostaria de ir? Então... Já diminuiu bastante a possibilidade, sabe?”

“E tem ainda a possibilidade de sair do Brasil. Sempre tem essa possibilidade. Eu gostaria de ir para alguns lugares. Por exemplo, Portugal. Tem a questão do idioma e a possibilidade de trabalhar na Europa. Ver o que acontece por lá, mesmo. O que eu conseguiria fazer lá? Seria possível fazer um bom trabalho? Seria um desafio para mim. Porque nós brasileiros fechamos algumas portas. A Arábia é um exemplo. Era um mercado completamente aberto para os brasileiros até os brasileiros esculhambarem com tudo. Sabe, é muita mutreta. Muita...”

Temos técnicos brasileiros com capacidade para trabalhar em qualquer lugar no mundo. Só que é engraçado: é uma profissão maldita, né?”.

A omissão da CBF

Outro ponto de crítica de Levir tem a ver com a CBF. Segundo ele, os cursos de capacitação são positivos, mas não existe um trabalho da entidade para realmente ajudar os treinadores.

“Eu não acredito na CBF. Não acredito porque a CBF tem um palácio lá no Rio que é fruto de um futebol pentacampeão mundial. Com técnicos e com jogadores brasileiros. Mas a CBF não tem capacidade de pagar um curso de aperfeiçoamento dos técnicos pra melhorar o futebol brasileiro. O curso custa 40 mil reais. A maioria dos técnicos não tem capacidade para pagar”.

“Olha a situação do futebol brasileiro. Aí você fala: como é que nós vamos melhorar? É cada um por si e Deus me ajudando. Por que a CBF não assume tudo? Por que não presta um serviço para os técnicos, para melhorar a qualidade do futebol brasileiro? A CBF só arrecada. A arrecadação da CBF é algo espetacular de dinheiro. Não aceito isso. Tive a felicidade de ter curso superior. Quando vou lá, me sinto mal porque não vejo o futebol brasileiro em boas mãos”.

A dinastia gaúcha da seleção brasileira

Levir ainda acredita que pode ser treinador da seleção brasileira. Mas ele também admite que a possibilidade, hoje, é quase mínima. “Eu torci por mim mesmo várias vezes. Gostaria de ir. Mas são coisas independentes de mim, né? E ainda tem a ligação política. E, infelizmente, não tenho e nunca tive uma ligação política. Cara, eu nunca tive um empresário. Olha bem como funciona: se eu tivesse um empresário, como alguns que existem aqui pelo país, talvez eu tivesse um outro rumo. Porque o empresário te coloca nos lugares”.

Além disso, existe o fator “local de nascimento”: “Na verdade, a gente vive uma certa dinastia gaúcha. Pense bem: quem são os últimos técnicos da seleção brasileira? É Felipão, Falcão, Mano Menezes, Dunga, Tite... Dá para dizer que é uma dinastia gaúcha, né? Porque na verdade o gaúcho é um povo bem corporativista, batalhador e vencedor. Eles têm competência para se instalar, então conseguem. Mas gostaria de ver um outro perfil”.

Givanildo e o preconceito com nordestino

Ainda sobre seleção brasileira, Levir Culpi entende que existe preconceito nacional contra treinadores fora do eixo Sul-Sudeste. Ou melhor: não é um preconceito contra treinadores. É um preconceito geral.

“Vou citar um cara que seria técnico de seleção mesmo fora do eixo: o Givanildo. Olha bem. O Givanildo só não é técnico da seleção brasileira por causa do nome dele, que é um nome muito feio. Givanildo. Porra, que nome horrível pra ser um técnico de futebol. Mas, cara, ele tem uma personalidade... Tem aquele sotaque nordestino, não tem vocabulário extenso como alguns técnicos que sabem conversar muito bem. E é um cara muito simples. Mas tem uma liderança que poucos têm e um conhecimento de futebol que poucos têm”, analisa Levir.

“Quando jogava no Santa Cruz, ele foi convocado e, quando chegou na seleção, dava dura em todo mundo. É um cara completamente do futebol. Agora, técnico de futebol do Nordeste... Existe um preconceito nosso. Um preconceito absoluto”.

1992: o ponto mais alto do Criciúma

Em 1992, Levir Culpi levou o Criciúma a um dos `pontos mais altos´ da história do clube, segundo palavras do próprio treinador. Depois de conquistar a Copa do Brasil no ano anterior, com Felipão como técnico, o time catarinense acertou a volta de Levir – que já havia comandado a equipe entre 1989 e 1990 e conquistado um título estadual.

No comando, Levir fez uma campanha inesquecível na Copa Libertadores: venceu o eventual campeão São Paulo na fase de grupos (3 a 0) e chegou às quartas de final, eliminado pelo próprio Tricolor após derrota por 1 a 0 no Morumbi e empate por 1 a 1 em Criciúma.

"A gente deve isso a uma formação involuntária. Eu não tinha convicção. Montamos o time e quando fizemos os testes físicos, descobrimos que tinham uma capacidade física muito acima da média. Não sentimos problema nem na altitude
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Sobre o ponto forte daquele time

"A qualidade dos jogadores também era alta. Vanderlei, Itá, Roberto Cavalo... Jogadores de um nível muito bom. Então, fechou um time que seguiu por praticamente dois anos. Foi um período maravilhoso. Aprendi muito lá e tenho muita saudade
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Lembrando do elenco daquele Criciúma

Queda com o Palmeiras em 2002: "estava escrito"

Levir Culpi assumiu o Palmeiras ainda no começo do Campeonato Brasileiro de 2002, mas foi o terceiro técnico palmeirense dentro da mesma competição, após Vanderlei Luxemburgo e Flávio Murtosa. Apesar de contar com um elenco recheado (Pedrinho, Arce, Dodô, Zinho...), a turbulência política falou mais alto. Levir não conseguiu evitar a queda.

“Não foi o pior sentimento da carreira porque, na verdade, nós fomos contratados para tentar escapar no último suspiro. Mas não foi por falta empenho dos jogadores nem nada. Sabe quando parece que está escrito? Aí não tem jeito: a coisa não funciona. Time grande quando entra em crise pesa muito mais”.

“Havia um peso muito forte, aquela `brigaiada´ de diretoria. Aquela coisa de sempre, o mesmo enredo. É claro que fica uma sensação de impotência desagradável, mas a gente aprende muita coisa também. Aprende que você não é o bom da parada. Os caminhos não têm só vitória. Até hoje a gente paga o preço por algumas derrotas, mas leva com um pouco mais de... Não é sabedoria, mas você fica mais cascudo, né? Entende-se mais o que acontece”.

Ceni não errou no São Paulo

Levir trabalhou com Rogério Ceni quando foi técnico do São Paulo. Nesse período, viu qualidades no goleiro. E não vê um erro na decisão do jogador em aceitar a transição do campo para o banco de reservas rapidamente. "Ele, talvez, achasse que já tinha corpo para assumir um clube com a grandeza do São Paulo. A identificação dele com o clube é um negócio absurdo. Havia uma perspectiva boa e ele se agarrou a isso. É claro que ele podia começar num time menor, mas também não acho que houve erro de cálculo. Podem falar que ele errou, mas é só porque não deu certo. Tem muitas circunstâncias que impedem um trabalho. Ele tentou e vai ter outras oportunidades. Torço por ele porque é um cara do bem".

Fair play, R. Caio e educação

Um dos temas mais discutidos dentro do futebol atual, o fair play (ou a falta dele) é visto por Levir Culpi como uma questão de educação. "Nós somos educados para enganar o adversário, ludibriar e ganhar de qualquer forma. Para mudar isso, é preciso de uma mudança radical na educação. Fazer gol igual ao Maradona, com a mão, não é digno de elogios. Eu procuro falar com os jogadores, mas é uma questão enraizada. Inclusive em mim. Por isso, não daria bronca no Jô, por exemplo. Eu procuro me colocar no lugar dele. Se ele disser que pôs a mão, é capaz de ser crucificado pelos torcedores. E o Rodrigo Caio? Deveria ser elogiado por todos, mas foi criticado. Como você pode dizer que está errado com ele fazendo a coisa certa?".

Início da carreira e os 50 anos de futebol

Levir Culpi tinha 14 anos quando, definitivamente, iniciou no futebol. Até então, era apenas um bom jogador no time do bairro. Mas a vida do menino começou a mudar quando viu um anúncio para uma peneira no Coritiba, em 1967. Foi bem, passou, e a partir daí construiu uma sólida carreira como zagueiro – passou por Botafogo, Santa Cruz, Colorado-PR, Atlante-MEX, Figueirense e Juventude.

Muita gente se orgulharia de um currículo assim. Mas Levir tem uma lista de conquistas ainda mais significativa como treinador. “Meu pai jogou futebol. Ele gostava. Meu irmão mais velho era `dono do time´ do bairro. Todo mundo jogava bola”.

“Um dia, apareceu no jornal um chamado para formar o infanto-juvenil do Coritiba. Então os meninos tinham que se apresentar lá no Couto Pereira, na época era Belfort Duarte ainda, e nós fizemos o time do bairro e fomos. Eu tinha 14 anos. Estou completando 50 anos de futebol, se considerar da hora que entrei no infantil até este momento”.

O único dos irmãos que "não trabalhou"

"Eu que vos falo fui o único dos meus irmãos que não trabalhei. Me formei em educação física quando ainda jogava. Olha que coisa engraçada. Com 18 anos, já tinha passado no vestibular. Eu jogava no Santa Cruz e não ia em algumas aulas, por causa de viagens, mas terminei. E nunca dei uma aula de educação física na vida
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Sobre a faculdade, que começou em Curitiba e terminou em Recife

"Eu nunca saí do futebol. Meu pai sempre disse que eu tinha sorte porque nunca trabalhei na minha vida. Isso foi uma coisa que aprendi mais tarde, quando comecei a pensar sobre isso. É verdade mesmo, meu pai tinha razão: futebol, pra mim, é esporte. É uma delícia. Não me sinto trabalhando. Então nunca trabalhei na minha vida
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Explicando porque nunca considerou o futebol um trabalho

Um casamento que vive da falta de relacionamento

Casado com Dona Marília há 40 anos, Levir leva esse jeito engraçado para dentro de casa. Prova disso é sua definição do casamento: “Ela é descendente de alemão, toda certinha. Ela que controla minha vida. Sem ela, eu seria um cara vagando sem destino. Ela que organiza tudo. Eu fico sonhando, fico lendo, vendo outras coisas que eles não veem. Mas deu muito certo”.

“E nosso casamento é quase perfeito. Temos mais de 40 anos de casamento. Ele é quase perfeito porque nós não vivemos juntos. Então, ela não passa por problema nenhum, entende? Imagina eu perto dela enchendo o saco toda hora? Ela é feliz da vida. Nos encontramos nos finais de semana”.

A falta do relacionamento é o que sustenta nosso casamento [risos]. Que coisa engraçada”.

Edição: Bruno Doro e Celso Paiva; Imagens e edição de vídeo: Raquel Arriola; Reportagem: Marcello de Vico e Vanderlei Lima.

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