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Titular em 31 das 32 partidas do Manchester City na competição, Touré anotou 18 gols

Titular em 31 das 32 partidas do Manchester City na competição, Touré anotou 18 gols

O lado azul de Manchester está preocupado. Um país inteiro também. O meio-campista Yaya Touré sofreu uma lesão na virilha no último domingo, na derrota do Manchester City por 3 a 2 para o Liverpool. O problema pode afastá-lo dos gramados até o fim da atual temporada, e isso, muito mais do que o revés, ameaça qualquer pretensão de título dos citizens no Campeonato Inglês. Na Costa do Marfim, o clima também é de apreensão. Depois de superar desconfianças na Europa, conflitos políticos e até a gripe suína, Touré atingiu o status de jogador fundamental.

Números da atual temporada do Campeonato Inglês ilustram isso. Titular em 31 das 32 partidas do Manchester City na competição, Touré anotou 18 gols. Na tabela de artilheiros, o meio-campista marfinense é superado apenas pelos atacantes Luis Suárez (29) e Daniel Sturridge (20), ambos do Liverpool.

O que chama atenção para Touré é a eficiência. Suárez precisou finalizar 163 vezes (73 na meta), segundo dados do site "The Score", para chegar aos 29 gols. O marfinense acertou a direção em 25 dos 54 chutes, e 18 acabaram nas redes (os números não consideram a rodada do último fim de semana).

Mas os gols contam apenas parte da história de Touré nesta temporada do Campeonato Inglês. O meio-campista também distribuiu cinco assistências e tem média de um roubo de bola a cada 15 minutos.

Touré também está entre os jogadores que mais distribuem passes no Campeonato Inglês. Ele tocou a bola para companheiros 2179 vezes, com aproveitamento de quase 90%.

Entre gols, assistências, roubos de bola e passes certos, Touré é fundamental para o Manchester City em diferentes partes do campo. Na Inglaterra, o marfinense é chamado de jogador "box to box" ("área a área", em tradução livre). Mas o marfinense de 30 anos levou muito tempo até atingir esse status.

Dos conflitos da Costa do Marfim ao futebol europeu

Nascido em Bouake, segunda maior cidade da Costa do Marfim, Gnégnéri Touré Yaya tem dois irmãos jogadores. Kolo, o mais velho, é zagueiro, chegou a ser companheiro dele no Manchester City e atualmente defende o Liverpool. Ibrahim, dois anos mais novo do que o meio-campista, é atacante e joga no Al-Safa (Líbano).

Os irmãos Touré começaram a jogar no Asec Mimosas, time da Costa do Marfim que também revelou jogadores como Emmanuel Eboué, Didier Zikora, Salomon Kalou e Aruna Dindane.

A geração que atualmente forma a base experiente da seleção de Costa do Marfim teve papel fundamental para a política do país, que era conhecido até os anos 1970 como o "céu da paz no oeste africano". Nas décadas seguintes, explodiu um confronto entre o norte (rebelde) e o sul (governista).

O cerne do embate foi o processo migratório ocorrido no período de bonança da Costa do Marfim. O país tinha estabilidade política, paz e agricultura pujante, mas carecia de mão de obra. Isso atraiu muitas pessoas de nações vizinhas, como Mali e Burkina-Faso.

Com mais gente, a produção agrícola da Costa do Marfim deixou de gerar tantos excedentes. E pior: os novos habitantes do país quiseram participar da vida política, o que gerou um embate entre "marfinenses antigos" e "marfinenses novos".

O conflito dividiu a Costa do Marfim e criou entre as duas regiões uma zona neutra controlada pela ONU (Organização das Nações Unidas), com apoio de um grupamento militar francês chamado Licorne.

A Costa do Marfim desenvolveu forte cultura excludente. Esse cenário foi acompanhado por conflitos políticos, como a eleição do presidente Henri Konan Bédié, em 1995. O pleito foi boicotado pela oposição, e o situacionista, que já ocupava interinamente o cargo, teve 95% dos sufrágios considerados válidos.

O governo de Bédié acirrou ainda mais os confrontos na Costa do Marfim. Ele intensificou a política excludente e instalou forte controle sobre imigrantes e habitantes do norte do país.

O cenário desembocou em um golpe de Estado em 1999. Houve outra tentativa de golpe em 2001 e uma terceira em setembro de 2002. Tudo isso levou a Costa do Marfim a uma guerra civil.

E o que o futebol tem a ver com isso? Mesmo no auge dos embates, a seleção da Costa do Marfim sempre teve representantes das duas regiões. A maioria do elenco é formada por jogadores nascidos no norte do país (os irmãos Touré, por exemplo), mas o atacante Didier Drogba, um dos principais ídolos do futebol local, é oriundo do sul.

"Didier Drogba é do norte, e eu sou do sul. Mas isso não significa nada quando nos encontramos para jogar", declarou Yaya Touré ao site "Twenty Ten".

Há um episódio especialmente emblemático nessa história. Em 2006, a Costa do Marfim venceu o Sudão e se classificou pela primeira vez na história para a Copa do Mundo. Depois da partida, os jogadores ajoelharam no vestiário, abraçados, e Drogba fez um apelo para uma câmera da TV que exibia o evento: "Um grande país como o nosso não pode afundar para sempre no caos. Por favor, parem com a guerra!".

Drogba foi eleito jogador africano da temporada em 2006. Depois disso, levou o troféu até Bouake, no norte do país, cidade em que os irmãos Touré nasceram. A região era um dos principais focos revolucionários no país.

Entender esse contexto é imprescindível para falar sobre a ascensão de Yaya Touré. O meio-campista do Manchester City foi eleito o melhor jogador africano nos últimos três anos (2011, 2012 e 2013). Um representante da parte excluída e mais revoltada do povo marfinense chegou ao topo.

Do Arsenal e do Barcelona, desconfiança. De Rivaldo, apoio

A experiência de Yaya Touré fora da Costa do Marfim começou em 2001, quando o meio-campista assinou contrato com o belga KSK Beveren. Nessa época, o jogador viajou à Inglaterra para um período de treinos no Arsenal.

"Lembro a primeira conversa que tive com Arsène Wenger [técnico da equipe inglesa]. Ele me perguntou em qual posição eu jogava, e eu disse que era meio-campista. Ele me perguntou por que e disse que me via mais como um atacante. Eu pedi para me colocar na frente da defesa e disse que podia ser igual ou melhor do que Patrick [Vieira, jogador com passagens por Arsenal e seleção francesa]. Ele respondeu que isso era impossível", contou Touré em entrevista à rede britânica "Sky Sports".

Wenger definiu Touré como "completamente mediano" e não quis contratar o jogador. O marfinense continuou na Bélgica até 2003, passou uma temporada no Metalurh Donetsk (Ucrânia) até assinar com o Olympiakos (Grécia).

Na Grécia, Touré teve uma convivência especial com um jogador brasileiro: "Ganhei dois troféus e ainda joguei com Rivaldo. Foi incrível. Ele me ensinou demais e me deu muita confiança".

O desempenho no Olympiakos levou Touré a disputar a Copa de 2006. E depois conduziu o meio-campista ao Monaco para mais uma experiência inicialmente complicada. O marfinense teve uma relação conturbada com o técnico László Bölöni, que insistia em escalá-lo como meia, e rendeu pouco.

Touré só explodiu no Monaco depois de Bölöni ter sido substituído por Laurent Banide. E assim, como jogador chave da equipe francesa, o marfinense foi negociado com o Barcelona em 2007. O time catalão pagou nove milhões de euros para ter pela primeira vez na história um atleta nascido no país africano.

O Barcelona parecia o lugar perfeito para Touré. A equipe espanhola, contudo, vivia o ocaso de um elenco cujos maiores expoentes eram Ronaldinho Gaúcho, Samuel Eto'o e Deco. O marfinense pegou a transição dessa geração para o time de Xavi, Iniesta, Messi e do técnico Pep Guardiola.

Na primeira temporada com a camisa do Barcelona, Touré disputou 38 jogos e fez até um gol contra o Schalke 04 nas quartas de final da Liga dos Campeões da Uefa. Depois que Guardiola assumiu, porém, o marfinense passou a ser opção para a posição de primeiro volante – Sergio Busquets, egresso das canteras catalãs, assumiu a titularidade nesse setor.

Entre lesões, problemas de posicionamento e rendimento tímido, Touré participou de um dos períodos mais vitoriosos da história do Barcelona: "Foi inacreditável. Ganhamos seis taças no meu segundo ano. Era algo fantástico para mim, um jogador africano que vinha do Monaco. O elenco tinha nomes de muito peso, como Thierry Henry e Eric Abidal, que tinham sido contratados de grandes equipes".

"Eu aprendi demais a ser profissional e a me preparar para os jogos. Depois do Barcelona, passei a chegar duas horas antes dos treinos e fazer exercícios sozinho. Isso é importante para mim", completou Touré.

No Manchester City, a desconfiança foi de Touré

"Eu tinha de sair e mostrar às pessoas". Foi assim que Touré explicou em 2010 a negociação que o levou do Barcelona para o Manchester City. O marfinense chegou a conversar com Guardiola antes de sair da equipe catalã, mas percebeu que teria pouco espaço com o técnico e preferiu arriscar uma mudança.

O primeiro contrato de Touré com o Manchester City foi assinado em julho de 2010. O meio-campista recebeu a camisa 42, inverso do número 24 que ele usava na época de Barcelona.

Touré estreou no Manchester City em julho de 2010, num amistoso contra o América (México). No dia 7 de agosto, o meio-campista fez a primeira partida no estádio do novo clube e foi eleito o melhor em campo de um amistoso contra o Valencia.

A trajetória do marfinense no City já rendeu três títulos, incluindo o Campeonato Inglês da temporada 2011/2012. "No início, foi difícil assinar porque eles não eram grandes concorrentes. Mas eu conversei com Garry Cook [presidente do clube], que me disse que o elenco seria muito reforçado para me ajudar. Para eles, o objetivo era fazer o time crescer e crescer", declarou o camisa 42.

Com um elenco turbinado e a ascensão de Touré, o Manchester City passou a ser, sim, um forte concorrente em âmbito nacional. O desafio do marfinense é repetir isso fora da Inglaterra, e isso vale para clube e seleção.

Antes, porém, Touré precisa se recuperar. "Vai ser muito difícil para ele terminar esta temporada", disse Manuel Pellegrini, técnico do Manchester City, depois do jogo de domingo.

O City tem 70 pontos em 32 jogos no Campeonato Inglês. A liderança é do Liverpool, que somou 77 pontos em 34 partidas.

Se conseguir 100% de aproveitamento nas partidas atrasadas, o Manchester City estará a um ponto do topo. A quatro rodadas do término da temporada, não é uma desvantagem impossível de ser tirada. Mas a ausência de Touré aumenta consideravelmente o tamanho do desafio.

O mesmo raciocínio vale para a Costa do Marfim. Em sua terceira Copa consecutiva, o time africano está no Grupo C, que também tem Colômbia, Grécia e Japão. Uma chave acessível? Depende muito de Yaya Touré.

FOTO: UOL

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