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Nas duas últimas décadas lemos e ouvimos frases no futebol como ?não tem passaporte internacional?.

Nas duas últimas décadas lemos e ouvimos frases no futebol como ?não tem passaporte internacional?.

Nas duas últimas décadas lemos e ouvimos frases no futebol como "não tem passaporte internacional?. Confesso estranhar tal argumento, que ganhou muita força a partir da década de 90, quando o torneio Libertadores da América tornou-se obsessão no currículo dos clubes da América do Sul, sendo que as equipes que venciam satisfaziam a sua torcida à tal ponto que aproveitava para ridicularizar seus adversários, com quem tinha menos e principalmente quando nunca havia sido campeões. O time que não tinha o título era taxado de "não ter história?, como se tal conquista servisse como único parâmetro para se definir a grandeza de uma agremiação. Tal desvalorização, principalmente partida das novas gerações, trata-se de um total desrespeito àqueles times e jogadores do passado, que faziam excursões ao exterior, enfrentando exaustivas viagens, jogando contra fortíssimas equipes, com condições de campo e clima desfavoráveis a um bom desempenho no jogo, vestimenta e bola precária se comparados aos de hoje, além do pouco dinheiro que se ganhava na época, mas com os atletas estando conscientes que deveriam honrar o time que defendiam e o seu país.
O objetivo do texto é tentar desmistificar a questão da importância internacional. Quem tem entre 10 e 30 anos gosta muito de desmerecer o futebol que se jogava antes dos anos 90, alegando que antigamente os jogadores eram mais lentos, as marcações mais fáceis e a bola (pasmem!) era quadrada. Ledo engano.
Quando a Libertadores surgiu em 1960, seu objetivo era de uma competição intercontinental em que adversários sul-americanos pudessem se enfrentar e novamente manter laços de amizade, algo comparado à competição europeia, que era disputada desde 1955/1956. Os clubes campeões dos seus respectivos continentes se enfrentavam em duas partidas finais, uma em cada país, para ver quem seria o campeão mundial, mudando a regra no ano de 1980, quando a decisão passou a ser decidida num único jogo no Japão. Em 2000 surgiu o oficial Campeonato Mundial, o primeiro reconhecido pela FIFA, que geralmente é representado pelo campeão de cada continente.
No início do torneio, o Santos Futebol Clube se favoreceu muito, pois possuía a melhor equipe do planeta, além de Pelé, o maior futebolista de todos os tempos, conquistando um Bicampeonato da Libertadores e Mundial em 1962/63. Demorou 13 anos para que um time brasileiro voltasse a conquistar o título sul-americano, cabendo ao Cruzeiro Esporte Clube vencê-la em 1976, mas sendo vice-mundial para o forte Bayern de Munique. O Internacional de Porto Alegre, que tinha um grande time do qual foi três vezes campeão nacional durante a década de 70, ficou em segundo lugar na Libertadores de 1980. Diferente de hoje, disputar a competição na época era algo incômodo para os clubes brasileiros e seus atletas, que o consideravam um torneio sem vergonha, cansativo e sem importância. Talvez tal mentalidade tenha mudado a partir de 1983, quando os gremistas foram campeões sul-americanos e mundiais, principalmente pelo fato de terem aturado seguidas gozações dos rivais colorados devido à sequência de conquistas estaduais e nacionais na década anterior, colocando uma faixa em frente ao seu estádio escrita "Grêmio, campeão do mundo, nada pode ser melhor?. Foi uma espécie de provocação ao maior adversário. O Flamengo também havia conquistado ambos os títulos em 1981, mas como já dominava bem o futebol brasileiro, foi mais uma consequência do que propriamente uma gozação frente aos rivais cariocas, que até 1998 nem sequer na final da Libertadores haviam chegado. No caso do Cruzeiro, por mais importância que tivesse o título, ainda havia a velha gozação dos atleticanos, que somente eles tinham sido campeões brasileiros (o primeiro, por sinal, em 1971), mesmo os cruzeirenses sendo vencedores pela segunda vez no ano de 1997, algo que mudou no ano de 2003, com a inédita conquista nacional e depois que a Taça Brasil passou a ser reconhecida com o mesmo valor do Campeonato Brasileiro, fazendo com que a brincadeira mudasse de lado, tornando o time celeste o primeiro time mineiro a ser campeão brasileiro em 1966.
Times e jogadores brasileiros já brilhavam em partidas internacionais, tanto no Brasil como no exterior, muito antes de surgir a Libertadores da América. Em 1912 o extinto S. C. Americano, da cidade de São Paulo, foi o primeiro time brasileiro a excursionar para fora do Brasil, realizando grandes apresentações na Argentina e Uruguai, reforçado por craques de outros times, além do goleiro Hugo de Moraes, considerado o melhor do país. Já em gramados europeus, coube ao Clube Atlético Paulistano (que encerrou suas atividades futebolísticas no ano de 1929) ser o primeiro time do nosso país a jogar no Velho Mundo, com o talento do centroavante Friedenreich, seus grandes jogadores, também estando presentes atletas de outras equipes, encantando os franceses com belas apresentações, fazendo com que a imprensa europeia esquecesse-se dos uruguaios campeões olímpicos de 1924, percebendo que era no Brasil que se praticava o melhor futebol da América do Sul, deixando a primeira boa impressão do nosso jogo para os europeus (a segunda seria a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938) e chamados de Reis. Na década de 20, quando equipes argentinas e da própria Europa se aventuravam no Brasil para fazer grandes apresentações, geralmente voltavam derrotadas quando enfrentavam os fortes quadros do Corinthians e Santos. O futebol era amador, mas de amadores os jogadores brasileiros não tinham nada, jogando num estilo de primeira linha.
Muitos não sabem, mas o Sport Club Corinthians Paulista era um dos times com melhor desempenho em partidas internacionais. Desde que ocorreu o seu batismo internacional em 1914, foi uma pedra no sapato para grandes equipes que tentavam enfrentá-lo em seus domínios. No ano de 1948 simplesmente derrotou no estádio do Pacaembu pelo mesmo placar de 2 a 1 os dois melhores times do mundo na época, que eram o River Plate (Argentina) e o Torino (Itália). Neste mesmo ano excursionou pela primeira vez para fora do Brasil, mas com a delegação de bola ao cesto (basquete) pela Argentina e Uruguai. A primeira partida da equipe de futebol no exterior aconteceu em 1951, quando derrotou por 4 a 1 um combinado uruguaio em plena capital Montevidéu, vingando a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai na decisão realizada no estádio do Maracanã. Foi convidado no ano seguinte para a sua primeira excursão à Europa, vencendo turcos, dinamarqueses, finlandeses (inaugurou o estádio olímpico das Olimpíadas de Helsinki) e suecos (que contavam com jogadores campeões olímpicos de 1948), com os jogadores sendo cumprimentados pelo rei da Suécia antes do capitão brasileiro Bellini na Copa do Mundo de 1958, entusiasmando as torcidas, que considerou o elenco como verdadeiros artistas da bola, recebendo a Fita Azul, prêmio dado às equipes que permaneciam invictas por muitos jogos fora do país, nada mais nada menos que 15 partidas. Já no ano de 1953 conquistou o Torneio de Caracas (Pequena Taça do Mundo), uma espécie de competição mundial interclubes, vencendo todos os jogos, enfrentando adversários como a seleção local e os fortes Roma e Barcelona, sendo que o último voltou a enfrentar nos seus domínios na sua segunda excursão europeia, em 1959, derrotando-o novamente com uma boa equipe, fazendo com que o Barça nunca tenha vencido uma partida contra o Corinthians. Um fato importante que merece ser exaltado é que no período de 1952 a 1954 permaneceu 32 jogos internacionais (25 fora do Brasil) sem perder para adversários, recorde entre os times brasileiros que nem o Santos de Pelé conseguiu superar. Com todo o glamour que teve a inédita conquista da Libertadores da América em 2012, em nada fez perder esse brilho do seu passado internacional, que prova que falta de passaporte estrangeiro é para aqueles que desconhecem a sua história.
Outro time brasileiro que muitas vezes foi tripudiado por não ter a Libertadores é o Clube Atlético Mineiro. Mas o Galo fez bonito em épocas passadas, tornando-se o primeiro clube brasileiro no futebol profissional a realizar uma excursão à Europa. Ocorreu nos meses de novembro e dezembro de 1950. Disputou dez jogos, perdendo apenas dois, jogando na Alemanha, Áustria, Bélgica, Luxemburgo e França. Pode-se afirmar que foi o primeiro triunfo brasileiro contra os estrangeiros após a traumática derrota para os uruguaios no Mundial. Por ter feito bonito, vencendo a maioria das partidas e jogar numa temperatura muito baixa, o Atlético passou a ser o Campeão do Gelo.
A Portuguesa de Desportos ultimamente tem pouco reconhecimento estadual e nacional. Mas poucos sabem que no início da década de 50 era uma potência entre os clubes brasileiros quando excursionava ao exterior. Dona de um poderoso esquadrão, a equipe fez uma histórica excursão ao continente europeu no ano de 1951, permanecendo invicta em terras turcas, espanholas e suecas, sendo que o ponto alto foi a partida em que venceu o Atlético de Madrid, sendo considerada por muitos como o melhor time do mundo, conquistando o Troféu San Izidro. Em 1953 a Portuguesa novamente permanece invicta excursionando pela América do Sul. E no ano de 1954 realiza sua segunda excursão à Europa, enfrentando times da Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha e Turquia, obtendo pela terceira vez a Fita Azul, motivo de orgulho para o clube e seus torcedores.
Atualmente quando se fala sobre reconhecimento internacional, deve-se tomar cuidado para não se cometer injustiças. Conhecer, entender e poder julgar é necessário, para que não se escreva ou diga erros sobre o passado dos grandes clubes, inclusive dirigentes que tem esse péssimo hábito, fazendo com que muitos torcedores passem a acreditar em algo que é uma meia-verdade. Ganhar a Libertadores da América sem dúvida é uma grande conquista para o futebol milionário da atualidade, mas usá-la como único motivo para se engrandecer um time, é algo que foge ao racional. Tradição é importante, mas utilizá-la como desculpa, antecipando vitórias ou títulos, é sem lógica. Os times que venceram tinham na ocasião grupos bons e as circunstâncias dos adversários contribuíram para tal feito. Desmerecer um time como o Botafogo, que teve equipes das quais jogavam Carvalho Leite, Heleno de Freitas, Garrincha e Gérson, que é conhecido como Glorioso (citação feita no seu hino), ignorando a sua linda história pela falta do título sul-americano, considero como uma péssima política. O mesmo afirmo para o Fluminense, conhecido pelos esforços em prol do futebol brasileiro, recebendo merecidamente em 1949 a Taça Olímpica, além da sua Copa Rio de 1952, que o Palmeiras havia vencido no ano anterior, equivalente a um título mundial. E que o Atlético vença a sua primeira Libertadores na próxima quarta-feira, 24 de julho de 2013 e entre para o hall dos times brasileiros que conquistaram um título que não é inconquistável pra ninguém.
Imagem: @CowboySL





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