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Em 2011, Adalberto Piotto deixou um cargo estável de nove anos como apresentador da CBN para investir em documentários

Em 2011, Adalberto Piotto deixou um cargo estável de nove anos como apresentador da CBN para investir em documentários

Link do site: http://orgulhodoc.com.br/

Link do trailer no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=YsFlpuXDDzs

Em 2011, Adalberto Piotto deixou um cargo estável de nove anos como apresentador da CBN para investir em documentários. Desta empreitada nasceu o filme Orgulho de Ser Brasileiro, lançado ano passado e pelo qual o jornalista e agora cineasta segue viajando pelo país e mundo o divulgando em mesas de debates.

Antes passou por veículos reconhecidos como Rede Globo e Rádio Bandeirantes. Com a obra Orgulho de Ser Brasileiro coloca personalidades do calibre de Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva e o técnico de futebol Carlos Alberto Parreira para discutir a identidade nacional assim como os aspectos negativos e positivos da nação. Em entrevista exclusiva ao Terceiro Tempo Piotto fala desta experiência e as expectativas do país nos esportes.

Como foi produzir o documentário Orgulho de Ser Brasileiro?

O filme é resultado de um incômodo meu, pessoal, que provoco no filme para ser de todos e que trata dessa instabilidade dos sentimentos dos brasileiros com o Brasil. Sempre me incomodou profundamente o uso da expressão "orgulho de ser brasileiro" num dia, por algo bom que tínhamos feito como país, e no outro dia, diante de uma simples rua suja, suja pelos próprios brasileiros, o orgulho já se transformava em vergonha. Isso expõe claramente essa mania nacional de não assumir o país inteiro, de não tomar conta do Brasil de verdade, pra valer. Queria provocar essa discussão de forma real e, por isso, arrisquei tudo o que tinha para fazê-la acontecer: recursos próprios para pagar o filme no final (o começo foi financiado por lei de incentivo), narrativa, fotografia e perfil de entrevistados. Aboli o estilo "favela-movie" de expor os pobres como culpados pela desgraça brasileira. Até porque miséria não comove quase ninguém mais neste país. Se comovesse, as pessoas responderiam às dores da população mais pobre que é mostrada e fala diariamente nos telejornais brasileiros. Responde? Comove-se? Daí, busquei um outro perfil de entrevistados, de brasileiros que ascenderam socialmente, que "deram certo" no país que ainda teima em não dar certo para muita gente. Isso me deu a possibilidade de provocar o debate novo, o debate que tirasse as pessoas dessa imensa mentira que são as zonas de conforto que alguns brasileiros imaginam estar. E consigo isso porque o filme revela que as carências, reclamações e aspirações por um país melhor são muito semelhantes entre todos os brasileiros, independentemente de classe social. Ou seja, acabei de juntar o país. Se alguém assistir ao "Orgulho" e depois não se enxergar parte de um mesmo Brasil, mesmo que vivendo de forma e em bairros distintos, com mais ou menos dinheiro, será a negação de si próprio.

Desde o seu lançamento o que pode falar da repercussão?

Bem, tem dois aspectos: o filme é independente como produção, na distribuição e o próprio diretor é intelectualmente independente. Tanto que não sucumbi a fazer o fácil que seria fazer outro filme sobre miséria brasileira com sentimento de culpa inócuo e conveniente para o coleguinha ao lado ver e mentir pra si mesmo também. Algo comum entre os cineastas e espectadores brasileiros, normalmente acomodados, que se limitam a mostrar e ver a miséria pela tela do cinema e escrever sobre ela no seu computador ou discutir sobre o assunto numa sala tranquila. O meu filme faz com que quem o assista questione a sua própria miséria enquanto brasileiro, a sua miserável cidadania, o seu misérável comportamento social. O "povão" que antes ficava confinado e à distância no bairro miserável retratado no favela-movie, agora é também ele mesmo, o espectador. Ele, no meu filme, também é povo ou "povão" brasileiro. Vai ter de dar resposta pra si mesmo e para seu semelhante de classe social sobre seu comportamento. Acabou o recreio! Não poderá mais fazer uso do distanciamento seguro que usava para se imaginar superior ante as periferias sociais e culturais do país retratadas nos fáceis filmes de miséria brasileira. Por esses aspectos, a repercussão entre a crítica de cinema e mesmo na imprensa foi, com exceções, em parte pequena e agressiva, ruidosa, de falso desdém, apesar do tamanho da discussão existente do filme. Amarelaram, fugiram do debate. Mas, por outro lado, nas muitas exibições que faço do meu filme pelo Brasil e pelo mundo, o público, que é quem realmente interessa, debate vigorosamente os temas. O que comprova minha tese de que tem muita gente neste país disposta a discutir o Brasil de verdade, desde que tratada com honestidade e transparência. O filme lhes dá isso...essa oportunidade. Ou seja, apesar do atraso sócio-antropológico da crítica de cinema e do jornalismo, quando as pessoas assistem ao filme, minhas dores de divulgação diminuem e o filme é convidado e ser exibido aqui e no exterior com frequentes convites para debates com o diretor. Já passou por São Paulo, Recife, Brasília, Campinas, Londres, Hamamatsu, no Japão, Fort Lauderdale, na Flórida, e vai para Fortaleza, Manaus, Piracicaba, no King's College de Londres, Oslo, Paris, Lisboa e acaba de estrear nos serviços de video on demand das principais operadoras como o NOW, da Net, a GVT, o Net Flix, a Apple TV, o Google Play, o site da livraria Saraiva, etc. Isso sem contar a imensa distribuição social de DVDs que fiz para escolas, universidades, sindicatos, etc.

Um dos temas tratados é a representatividade do futebol para o povo brasileiro sendo um dos entrevistados o técnico Parrera. Qual sua posição sobre essa relação do país com o futebol?

O futebol é um misto de energético e analgésico no Brasil. Como é tudo o que te emociona, que te envolve. Mas, como analgésico, diminui a dor, mas não cura a infecção. E como energético, te dá mais força, mais alegria, mais motivação naquele momento, mas não te deixa em pé no dia seguinte. Ou seja, dá ao brasileiro o refresco de que todos precisamos nas horas mais difíceis, mas não deixa as pessoas completamente desconectadas da realidade. Se isso acontece ainda, é cada vez menos. O Brasil está avançando na sua compreensão social. Por isso, seria tão estúpido punir o futebol, que fazemos bem, somos muito bons, quanto usá-lo para dirigir politicamente este país. Tanto que o futebol é a simbiose brasileira mais perfeita. Temos um talento particular, individual, especial no campo e somos uma tragédia coletiva imensa em organização. É ou não o Brasil individualista que sempre dá certo e errado ao mesmo tempo?

Como avalia as manifestações contra a Copa do Mundo?

Você fala do tal "Não vai ter Copa"? Esse eu acho ridículo e fora do seu tempo. Eu, por exemplo, fui contra a Copa do Mundo em 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010, quando era possível ser contra e discutir o evento. Mas o Brasil e os brasileiros, em sua maioria, seduzidos pelo maniqueísmo e a popularidade populista do Lula presidente, embarcou nessa aventura irresponsável. Muitos dos que hoje reclamam, a maioria, arrisco dizer, se omitiram ou se deslumbraram na época. Hoje não é mais possível ser contra. Por isso, vou fazer o que posso para que as coisas deem certo. Isso sem deixar em momento algum de fazer o que sempre fiz, como muitos neste país, que é questionar cada centavo gasto arbitrariamente num evento que não deveria acontecer. Embora os brasileiros se achem espertos, mais espertos que os outros, foram muito tolos e ingênuos de acreditar na tese de que é preciso uma Copa ou uma Olimpíada para ter serviços de qualidade no país. Em 2007, quando da decisão da Fifa, questionei isso num quadro de discussão sobre esportes que criei na CBN para qualificar o debate esportivo, o "Quatro em Campo". Victor Birner e eu fomos os únicos a nos posicionar com essa tese. Nossos outros colegas abraçavam esse argumento ingênuo de que a Copa traria mais infraestrutura e que só com ela os serviços de qualidade viriam. Hoje, pensam diferente, tal como uma grande parte da população esperta e deslumbrada de antes.

Acredita que dirigentes dão aos demais esportes tratamento comparável ao futebol ou até mesmo digno?

Não. Imagina!!! Só o futebol tem no Brasil apreço e apoio da massa dirigente e popular. E mesmo assim, o profissional. Esporte no Brasil nunca foi um projeto de Estado, um programa social de educação e saúde. Não amplamente como deveria ser.

Ferréz e Dom Angélico Sândalo Bernardino falam de exclusão social no filme. O esporte pode ser uma forma de inclusão?

Poderia, até consegue ser para os poucos que ascendem, mas não é uma coisa natural como deveria. Qual a importância que o esporte tem nas escolas brasileiras? É sub-disciplina dada, na maior parte das vezes, por sub-professores.

A imprensa brasileira consegue ir além dos gramados de futebol em sua cobertura?

A imprensa esportiva, em sua maioria, não. É deslumbrada, pouco politizada e com baixo nível de compreensão sócio-antropológica, o que é um nome acadêmico para a simples ausência de compreensão social do Brasil e do mundo. Mas há exceções, mesmo no mundo esportivo. E a imprensa de outras editorias já faz isso muito bem. Aliás, é quem tem dado sustentação, ao lado dos poucos jornalistas de esporte que têm esse entendimento, a toda essa indignação que finalmente tomou conta dos brasileiros com os abusos nos gastos com a Copa, da tese mentirosa de que só com Grandes eventos os brasileiros ganhariam cidadania e com essa maldita ética do futebol que se julga particular e diferente da ética em si, como se isso fosse plausível.

No Twitter: @gabrielleao

Foto: Adalberto Piotto/Divulgação



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