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Jornalista e empresário morreu aos 74 anos. Foto: Divulgação

Jornalista e empresário morreu aos 74 anos. Foto: Divulgação

Conheci Jota Hawilla na virada dos anos 70/80 quando ele ainda era, só, um repórter de campo como nós. Eu, na época, começava a trilhar a profissão na Gazeta Esportiva, num tempo em que os jornais cobriam tudo. Na cobertura diária de treinos e jogos de clubes, ou excursões da seleção brasileira, Hawilla era só mais um dos nossos nas rodas de resenha que fazíamos antes e depois das partidas, à espera dos entrevistados. Naquele tempo não havia coletiva, nem zona mista. As entrevistas eram livres, permitidas ainda dentro de campo. E até mesmo nos vestiários, ainda com os jogadores tomando banho, falando ao vivo embaixo do chuveiro ou enrolado numa toalha. Mesmo sendo repórter de jornal, convivi de perto com ele e tantas outras estrelas do rádio esportivo e da televisão, como Fausto Silva, Roberto Silva, Wanderley Nogueira, Ligeirinho, Cândido Garcia, Lucas Neto, Henrique Guilherme, Carmona...

Jota Hawilla já era um nome de destaque no meio e, em pouco tempo, assumiu posições de chefia nas emissoras em que trabalhou.

Montou equipes que marcaram época no rádio e na TV, antes de se tornar empresário. Junto com o também repórter Kleber Leite, seu par no Rio de Janeiro, trilhou os primeiros passos para montar um império que o fez enriquecer com a comercialização dos direitos de transmissão dos jogos na TV. Foi assim, trocando o microfone por um promissor e pioneiro negócio de vendas de placas de publicidade, que Hawilla virou o homem-forte da Traffic, o dono da TV Tem (uma das principais retransmissoras da Rede Globo instaladas em diversas cidades do Interior de São Paulo), o proprietário da Rede Bom Dia de jornais e, por fim, integrante de um clã de dirigentes eu ditavam os destinos do futebol mundial. O mesmo clã que, lamentavelmente, o levou à prisão e à delação dos esquemas de propina e corrupção na Fifa, enfim descobertos pela CIA.

Passado o tempo em que dividíamos o mesmo espaço para as entrevistas com jogadores só fui reencontrar Jota Hawilla mais de três décadas depois. Eu, como editor-chefe do Diário de S.Paulo e ele, simplesmente, como o novo dono do jornal, que acabara de comprar das Organizações Globo, em outubro de 2009. Com a Infoglobo decidida a abandonar sua operação de jornal impresso em São Paulo, Hawilla parecia a pessoa certa para assumir a empresa, por conta de suas já bem sucedidas relações comerciais com a família Marinho e por seu desejo de ampliar a Rede Bom Dia, agora com uma marca forte na Capital do Estado.
Impossível esquecer o primeiro dia de Hawilla na redação do Diário. Ele estava radiante, quase deslumbrado, parecia um menino que acabara de ganhar a sonhada bicicleta do Papai Noel. Acompanhado de alguns executivos de seu grupo, fazia questão de passear por todos os andares do prédio da Major Quedinho, cujas instalações haviam sido consideravelmente melhoradas pelas Organizações Globo. O prédio nem de longe lembrava a velha redação do Diário Popular, que tinha o piso de paviflex da redação todo chamuscado por bitucas de cigarro jogadas ao chão pelos jornalistas que fumavam enquanto redigiam seus textos. Quando Hawilla chegou o prédio já era outro, e a redação era um modelo de escritório organizado, limpo e até luxuoso para os padrões. Hawilla olhava para tudo aquilo e se sentia vitorioso. Vez em quando, passava por uma sala e perguntava para um de seus assistentes diretos, se este ou aquele móvel fazia parte do inventário do seu objeto de compra. Nesse passeio, mostrou especial admiração por uma festival de cadeiras Barcelona que a Infoglobo tinha trazido para o prédio. Com os olhos de quem sabe reconhecer um produto de valor, Hawilla perguntava com insistência para seu assistente:

-- Essas cadeiras também comprei, né?

Era óbvio que o valor das cadeiras significava quase nada no montante da operação, que superava os R$ 100 milhões. Mas Hawilla estava maravilhado com tudo aquilo e não queria perder nenhum detalhe. Quando me encontrou na redação, lembrou-se de um ou outro episódio que vivêramos juntos na reportagem num passado longinquo e me pediu para reunir a redação para fazer uma saudação. Pedi que todos deixassem os computadores e fizessem um círculo ali mesmo, para ouvir o novo proprietário. Em rápidas palavras, com poucos sorrisos (uma de suas marcas registradas era a cara fechada em situações de trabalho, que o fazias parecer sempre mal-humorado, embora fosse uma pessoa bem divertida fora daquele ambiente), fez as promessas habituais de melhora do produto e das condições de trabalho de todos nós.

Excitado, incansável, seduzido pelo valor do bem que acabara de arrematar, Hawilla decidiu ir conhecer o parque gráfico, em Osasco.

Ainda era hora do almoço, a gráfica praticamente estava parada naquele horário, não haveria muito o que ele conhecer lá, mas seu pedido era uma ordem. Montamos pois uma delegação e lá fomos nós. Eu, Pestana (que viria a ser o CEO do jornal), Leão Serva (já anunciado como novo diretor de redação; meu chefe, portanto) e dois assessores diretos do empresário, um deles o advogado Flávio Grecco.

Após vistoriar as impressoras e o depósito das bobinas de papel-jornal em estoque, Hawilla sugeriu que todos nós almoçássemos ali mesmo, no restaurante da gráfica, um bandejão que atendia os operários do setor e um ou outro visitante eventual, como nós.

Embora fosse um homem que começou do nada, com histórico de uma vida de repórter como qualquer outro trabalhador da notícia,

Hawilla era um empresário bem-sucedido, acostumado a frequentar ambientes requintados, restaurantes finos e serviços de qualidade. Digamos, então, que o cardápio à disposição naquele instante, sem nada programado previamente, não parecia à altura do ilustre visitante. Mesmo assim, todos fizeram fila, pegaram sua bandeja e foram se servindo daquele clássico menu dos restaurantes industriais; alface, tomate, arroz, feijão e bife. Como complemento, farinha, vinagrete e pimenta. Gentilmente, Hawilla deixou que todos passassem à sua frente e foi por último na fila. Pegou o alface, o tomate, um pouquinho de arroz, jogou uma concha de feijão por cima... e refugou diante da travessa dos bifes, que, a bem da verdade, não pareciam tão apetitosos.

-- O que foi, não gostou da cara do bife? – perguntou a atendente, com o garfo-espeto numa mão e a touca de plástico na outra, caindo da cabeça. Logicamente, ela não tinha a menor ideia de quem era aquele sujeito bem vestido, e com cara de poucos amigos.

Hawilla sempre foi polido, educado e gentil no trato com as pessoas. Naquele momento, diante da saia-justa da escolha do bife, redobrou seus cuidados para não parecer deselegante com a senhora que o atendia.

-- Não, é que eu não gostaria de comer carne... argumentou Hawilla, pra não dizer na lata que não tinha ido com a cara do filé à moda do parque gráfico...

-- Óia, não tem pobrema, nóis tem opção – disse, derrapando no vernáculo e nas concordâncias.

-- Ah, que bom, senhora! Eu agradeço. E quais são as opções para quem não quer comer carne? – perguntou Hawilla, feliz de saber que o restaurante do parque gráfico preocupava-se com a diversidade do paladar de seus funcionários.

-- Veja bem, nós tem três opções: ovo frito, omelete de queijo e omelete só de ovo!!!
Anestesiado como quem recebe um direto de Tyson no fígado diante de tantas possibilidades gastronômicas, Hawilla pensou, pensou e pediu um omelete só de ovo, seja lá o que isso significasse.
Humildemente, passou no final da fila, pegou um daqueles sucos coloridos artificialmente no copo de plástico e carregou sua bandeja, ainda sem a mistura para a mesa onde nós já estávamos, à espera do dono. Gentil, Hawilla liberou que começássemos a comer até que a mistura dele chegasse.

Cinco minutos depois, a senhorinha sai da cozinha com um prato na mão, e solta um grito no salão:

-- Ô Fio, vem buscar seu omelete que hoje nós tá sem garçom!!!

É com essa imagem, de um sujeito simples e que sempre respeitou seus funcionários, que hoje me despeço de J. Hawilla – um homem bem diferente desse que, lamentavelmente, trocou as manchetes do futebol mundial dos últimos anos pelas páginas policiais.

Descanse em paz, JH!

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