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A estreia de Senna na Lotus em 1985 em Jacarepaguá foi frustrante, mas traz boas lembranças

A estreia de Senna na Lotus em 1985 em Jacarepaguá foi frustrante, mas traz boas lembranças

A foto que ilustra a crônica é de 7 de abril de 1985.

Estou em uma acanhada arquibancada, para ser generoso, no extinto autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Dizem que o inferno é quente. Duvido que haja mais calor por lá do que aquele que passei nos três dias em que estive na cidade.

Dois dias antes desta foto cheguei ao Rio, vindo de São Paulo, após adquirir um pacote turístico para assistir o GP do Brasil de 1985, que marcaria a estreia de Senna na Lotus. Aquela, preta e dourada.

É difícil para que alguém que tenha menos de 30 anos entenda hoje o que era obter informações em tempos analógicos.

O mundo existia sem internet, mas em outra velocidade, em que pese a rapidez com que passaram aqueles carros diante das minhas retinas naquele fim de semana. A primeira vez que vi carros de F1 de perto.

Cheguei ao Rio na sexta-feira, depois do treino livre, portanto, sem qualquer informação do que havia acontecido, no caso, Elio de Angelis (companheiro de Senna na Lotus) ficado em primeiro lugar e Senna em segundo.

De ônibus, fui direto para o hotel, na Barra da Tijuca, pertinho da pista. 

"La Cache" era o hotel, na verdade um ex-motel transformado em hotel que tinha camas redondas e espelho no teto.

Tirando o clima quase burlesco do lugar, o ar condicionado funcionava muito bem, o que me fez pensar em desistir de colocar o "bico" para fora do quarto, mas havia o que fazer naquela sexta-feira.

A primeira coisa era obter alguma informação do que havia acontecido.

Não há celular. Não há computador. No quarto, liguei o rádio, mas somente emissoras FM estavam sintonizadas.

Assim, e sem TV no quarto, restava ir à recepção onde havia um aparelho e aguardar o "Sinal Verde", boletim informativo da Globo apresentado por Reginaldo Leme antes do `Jornal Nacional´. Foi ali que eu e mais uns vinte malucos por F1 ficamos sabendo o resultado do treino.

Uma certa decepção no ar para quem achava que Senna trucidaria De Angelis logo de cara, mas o brasileiro, depois de um ano espetacular pela Toleman, acabou levando quase sete décimos do italiano, que já estava no time inglês há cinco temporadas.

Fomos jantar em uma churrascaria e voltamos ao hotel para descansar e encarar o dia seguinte em que ficaríamos por horas no autódromo, para o último treino livre a a classificação.

Mais decepções, com a liderança de Alboreto (Ferrari) no treino livre e no treino que definiu o grid e Senna largando em quarto, uma posição atrás de De Angelis. Não vou entrar em detalhes. Eles estão aqui, em matéria especial que fiz sobre a prova.

Naquele mesmo sábado, após um bom banho no confortável "La Cache" (procurei para saber se ainda existia e não o encontrei), fomos jantar no Hotel Glória. Um jantar bem legal, o hotel estava bem caído mas sua arquitetura clássica enchia os olhos e a comida estava excelente.

Dalí, nosso guia turístico nos deu duas opções: o manjadíssimo Bondinho do Pão de Açúcar ou voltarmos para o hotel. Alguns preferiram a primeira opção, poucos a segunda, e uma meia dúzia de malucos, incluindo eu, sugerimos uma terceira via, o Maracanã, onde naquela noite jogariam América e Santos pelo Brasileirão...

E lá fomos nós ao verdadeiro Maracanã, gigante, no meio da torcida do "Diabo", torcer contra o Santos, em vão, pois o Peixe acabou vencendo por 3 a 2. O público, segundo o "Almanaque do Santos", de Guilherme Nascimento, foi de 3.490 pessoas. Eu, um deles...

No dia seguinte, o GP.

Senna abandonou por problemas elétricos (era o terceiro colocado e certamente subiria ao pódio), Piquet também ficou fora logo no começo e Prost venceu.

Pior do que a decepção por conta da jornada de Senna e também de Piquet (havia vários `Piquetistas´no grupo), foi a superlotação da arquibancada e os sacos de urina arremessados por aqueles que estavam mais acima.

Eu frequentava estádios desde os cinco ou seis anos de idade, mas nunca havia visto nada mais absurdo em minha vida em se tratando de espetáculo esportivo.

Hoje, 32 anos depois, guardo a camisa preta (da John Player Special) e o boné que aparecem na foto. Ambos me servem perfeitamente, pois tenho o mesmo peso e altura.

Guardo também uma saudade enorme do tempo em que embora os carros fossem rápidos, o mundo corria de outra forma.

Havia ansiedade pelas informações, o que havia acontecido.

Assisitir o Reginaldo Leme na tevê — hoje um bom amigo, que me chama de "Marcão" —, nos dando em primeira mão aquilo que havia acontecido no treino, tinha um sabor doce, um frescor que nenhum whatsapp é capaz de proporcionar hoje em dia...

E é muito bom agora, tanto tempo depois, ainda assistir o Reginaldo no seu "Sinal Verde", em outro formato, porque tem de ser assim mesmo, mas sempre perfeito. 

E só lamento não ter guardado o telefone da menina que aparece atrás de mim na foto, a única da nossa excursão.

Sabia tudo de F1 a mocinha que estava com um boné igual ao meu...

 



  

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SOBRE O COLUNISTA

No 2º ano do primário, sua professora, a dona Mitsy, escolheu sua redação para que ele a lesse para toda a sala. Depois, as professoras de todas as outras séries do primário o convocaram para a mesma tarefa.

Após essa "maratona?, dona Mitsy lhe disse uma única frase, que ficou ressoando em sua cabeça por todos os anos que seguiram:

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