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Uma pequena viagem pela indústria automobilística. Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT

Uma pequena viagem pela indústria automobilística. Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT

A oficina estava sempre abarrotada. Geraldinho a herdou do pai, seu Aderbal.

O velho morreu ali mesmo, um horror. Teve o pescoço quebrado quando a tampa do motor do Maverick azul marinho do seu Hermínio despencou. O velório foi ali mesmo.

Seu Hermínio, supersticioso, tratou logo de vender aquele 6 cilindros beberrão demais para uma época em que os preços da gasolina estavam pela hora da morte, mas por motivos diferentes dos atuais.

Era 1975 e, dois anos antes, o barril do petróleo havia pulado de U$ 2,70 para U$ 11,70 numa tacada só.

O carro virou motivo de histórias folclóricas no bairro. Diziam que aquele que guiava o sedã encontrava-se rapidamente com seu Aderbal, e que do escapamento exalava um cheiro insuportável, parecido com os gases do seu Aderbal, que sofria com uma incontrolável flatulência.

Dona Rigoletta, mulher do seu Alberto da farmácia, tinha uma explicação:

"Estão todos impressionados por causa dessa novela da Tupi", dizia a italiana, da quitanda vizinha à oficina, referindo-se à primeira versão de "A Viagem", de Ivani Ribeiro.

Fato é que a vida de Geraldinho não foi muito fácil no começo, assumindo a oficina do pai ainda muito jovem, aos 19 anos.

A clientela ficou meio ressabiada com a juventude do rapaz, mas ele havia aprendido bem o ofício com seu Aderbal, com quem compartilhava o lugar desde os sete anos de idade. Aprendeu na prática.

A indústria automobilística teve de mudar para enfrentar a crise do petróleo. Geraldinho gostava mesmo dos carros grandes, de preferência os 8 cilindros. Ele mesmo tinha um Dodge Charger/RT laranja. Teto preto de vinil. Um assombro de lindo.

Geraldinho tinha um Dodge Charger R/T como este. Um assombro de lindo. Foto: Reprodução

As montadoras começaram a produzir carros compactos e econômicos e isso foi a desgraça do Geraldinho. Aquele "cofre" apertado do Fiat 147. Segundo ele, era mais fácil consertar um motor de autorama com luvas de boxe.

Aliás, toda vez que um 147 ameaçava entrar na oficina era um corre-corre dos ajudantes de Geraldinho; ao banheiro, telefone ou para debaixo dos carros.

Geraldinho também tinha vontade de sumir, mas não podia...

O danado do carrinho era bonitinho, tinha uma concepção moderna com seu motor transversal e tração dianteira, e gastava pouquíssima gasolina, mas a mecânica era coisa para especialista mesmo. E o câmbio?

Seu Fausto, corintiano fanático, que trabalhava em uma fábrica de lixas, desistiu depois de um mês, após um soco bem dado na alavanca. E um dedo quebrado...

Além dos carros pequenos, outra "invenção" nos anos 70 foi o Proálcool. Geraldinho tinha um cliente que era metalúrgico: o Luis Inácio, da Marajó cinza.

Um dia o moço puxou Geraldinho para uma conversa.

"Sabe, Geraldinho, eu até entendo que o carro a álcool tem algumas vantagens mecânicas, como a taxa de compressão mais alta e, por isso, a potência é maior, mas deixar de plantar feijão, milho e arroz para plantar cana-de-açúcar é um absurdo. Isso vai aumentar o preço da comida. Nem o caminhão que leva a cana para a usina é movido a álcool. Usa diesel! Estão tirando da boca das pessoas para jogar no carburador dos carros", esbravejou o metalúrgico barbudo com sua voz rouca, que aproveitou para pegar uns botons que tinha no porta-luvas, umas estrelinhas vermelhas, e as deu de presente ao mecânico.

Geraldinho até concordou com a teoria do moço, mas não podia deixar de atender os clientes com carros movidos a álcool, claro, eram a maioria na época, como o seu Merchó, que tinha um Fusca branco que teimava em ratiar para pegar nas manhãs frias da Mooca.

A garagem do aposentado era descoberta, e o pobre Fusquinha ficava ao relento, pegando aquele sereno a noite toda...

Pela manhã, quando o homem precisava ir ao médico ou ao supermercado, era aquele "nhem-nhem-nhem" e nada de "vruuuuuuuuummmmmmm".

Geraldinho foi convocado para uma assessoria matinal. Tinha os "macetes". Ensinou seu Merchó:

"Vou mostrar ao senhor. Vire a chave até acender a luz do painel, bombe o acelerador por três vezes até o fundo, puxe o afogador e aperte o botão para injetar gasolina no carburador. Agora é só ligar!", ensinou Geraldinho.

O mecânico tentou por umas três vezes e constatou o problema. Seu Merchó não sabia que tinha de colocar gasolina em um carro a álcool. O metalúrgico barbudo tinha mesmo razão...

Na contra-mão da tendência da época, quem não pôde abrir mão de ter um carro grande e nada econômico foi seu Nivaldo, que cuidava com primor de sua Veraneio verde.

O homem tinha sete filhos, mais a mulher e, vez por outra, uma tia fanfarrona que pesava uns 140 quilos, que os acompanhava ao sítio em Atibaia, nos finais de semana.

Certa vez, no meio da viagem, o mais arteiro dos filhos do seu Nivaldo disse que precisava fazer xixi. Chovia a cântaros e a tia teve a genial ideia de apanhar uma garrafa vazia de guaraná caçula no porta-malas da Veraneio. Foi só esticar o braço.

O moleque colocou o pirulito no gargalo da garrafa e se aliviou. Tudo perfeito, se não fosse pelo simples detalhe do pirulito ter ficado preso. Seu Nivaldo teve de parar o carro e acalmar o menino. Relaxado, o problema foi resolvido...

Geraldinho tinha seu nome no diminutivo pela dificuldade em alcançar as ferramentas nos armários mais altos, e havia muitos por ali.

Uma divisória ele reservava a seu Waldemar, para guardar as cruzetas de suspensão do Corcel vermelho-jambo do homem grisalho.

As cruzetas eram o "calcanhar-de-aquiles do carro, mas seu Waldemar não ligava, adorava assim mesmo o bonito carro da Ford, a ponto de ter comprado um outro zero km, 1977, modelo LDO, areia-casablanca. Uma lindeza, com seus bancos bicolores em marron e bege.

Seu Waldemar só esqueceu dos "Corcéis" quando trocou o último por uma Caravan bege, daquelas com bagageiro no teto e toca-fitas TKR. Um porta-malas que podia levar até o Asdrúbal, que era o nome do telescópio do filho do meio. E ainda sobrava espaço.

A inovação da injeção eletrônica, na década de 80, foi um drama para Geraldinho, que era daqueles mecânicos que chegava ao extremo da arte, diagnosticando o defeito de um carro à distância, assim que dobrava a esquina da rua.

Para Geraldinho, a injeção eletrônica era uma temeridade:

"Numa estrada, à noite, com mulher e filhos? Uma sujeira no carburador, tudo bem... Uma soprada no giglê e pronto! Com essa droga de injeção, hummmm... só chamando o reboque!", alfinetava o mecânico.

Por isso, segundo ele, seu Demóstenes, dono de um caminhão guincho, começou a trabalhar tanto...

Mesmo assim não teve jeito, e o mecânico que preferia os carburadores teve de comprar os equipamentos para cuidar dos carros com injeção eletrônica.

Quem estranhou com a novidade foi Dona Veridiana, mulher do seu Merchó, assim que viu a nova placa na oficina de Geraldinho:

"INJEÇÃO ELETRÔNICA".

"Puxa, hoje em dia até os carros tão tomando injeção! E eletrônica!", murmurou Dona Veridiana, quando caminhava para a feira, na rua de cima.

Geraldinho, que estampava a parede da oficina com pôsteres de carros de Fórmula 1, sua maior paixão, em especial a March laranja de Vittorio Brambilla e a Ligier JS-11 do Jacques Laffitte, tinha uma ideia clara para o assunto da injeção eletrônica, e costumava fazer comparações:

"É melhor comer pizza na pizzaria do que em casa, assim como é melhor assistir jogo de futebol no estádio do que pela televisão. O som grave do vinil é bem melhor que do CD, e carro carburado é melhor do que carro com injeção eletrônica!", enfatizava o baixinho.

Geraldinho consertou muitos carros modernos com prazer, se curvou ao ABS, direção hidráulica e outras engenhocas. Era apaixonado pelo que fazia e ficava feliz com os clientes que saiam satisfeitos de sua oficina, sem reclamar do preço, pois não era careiro.

Mas parava qualquer diagnóstico eletrônico para socorrer um agonizante Chevettinho, um moribundo Dodge Polara ou uma Variant em estado terminal...

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SOBRE O COLUNISTA

No 2º ano do primário, sua professora, a dona Mitsy, escolheu sua redação para que ele a lesse para toda a sala. Depois, as professoras de todas as outras séries do primário o convocaram para a mesma tarefa.

Após essa "maratona?, dona Mitsy lhe disse uma única frase, que ficou ressoando em sua cabeça por todos os anos que seguiram:

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