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O espanhol deveria pensar apenas no hoje... Foto: McLarenF1

O espanhol deveria pensar apenas no hoje... Foto: McLarenF1

Não me lembro do meu professor José Ribeiro do Prado, de Língua Portuguesa, ter falado sobre Carpe Diem.

Fui seu aluno durante os três saborosos anos do colegial, período para mim de efervescência poética, política, automobilística, futebolística e hormonal. 

Do bom professor, a lembrança mais doce que tenho, literalmente, é a de um dia na praça em frente à escola para a enfadonha missão de hasteamento da bandeira. 

Estávamos no final do sanguinário período da ditadura militar, que felizmente caía de podre.

E o que eu e mais alguns entoávamos em comicios pelas "Diretas Já" eram palavras de ordem, como "greve geral, derruba o general". Que delícia!

Assim, naquela sonolenta manhã, lembro do professor Prado convidando a mim e mais uma meia dúzia de dissidentes da cerimônia ufanista para que nos encaminhássemos a um ambulante que vendia abacaxis em pedaços. 

Do fundo da praça, vendo os contornos da fachada da nossa escola, que lembrava o estilo anos 50 do genial arquiteto prático Artacho Jurado, ouvimos nossos colegas cantando o hino  — e dois hasteando as bandeiras  —, a do Brasil e a do estado de São Paulo.

O abacaxi estava doce e deixou nossas mãos meladas.

No cursinho, o Anglo da Tamandaré, aí sim, lembro bem do Carpe Diem ecoar da voz grave do nosso ótimo professor de Literatura Brasileira, o Dácio Antônio de Castro.

Nosso curso era dividido em "escolas literárias" e o tema era o Barroco. 

Carpe Diem, do latim, significa "aproveite o dia". Lembro do Dácio falar em "colha o dia", talvez como quem colhe uma fruta madura, que precisa ser consumida logo, antes que estrague. Talvez aquele abacaxi que o Prado nos comprou naquela pulsante manhã colegial...

Nós, que pensávamos em vestibular, em passar na USP (consegui!) e traçar uma rota segura para o futuro, fomos apresentados a um tal de Carpe Diem, que nos mostrava que melhor mesmo era viver o momento, porque o amanhã, o depois de amanhã e o depois do depois de amanhã, poderíam simplesmente não existir...

O fulgor daquele momento culminou com o "varal cultural" na sala 14 de "Humanas", obra da amiga Angela Klinke, um varal mesmo, que ficava no fundo da sala, de corda de nylon e cheio de pregadores para que pendurássemos nossas poesias, crônicas, sonhos e pensamentos que mudariam o mundo...

A Angela era a nossa Pagu, nossa Clarice, nossa Tarsila.

Anos depois o Carpe Diem foi eternizado em película pelo professor ovelha negra John Keating, vivido pelo inesquecível Robin Williams, no essencial "Sociedade dos Poetas Mortos".

Outro dia isso tudo deixou as gavetas empoeiradas das minhas memórias, graças à postagem de uma amiga, que surgiu como um anjo tocando harpa.

O preâmbulo, longo mas necessário, foi só para que eu entrasse no meu habitual assunto semanal: automobilismo.

Imaginei o quanto o Carpe Diem poderia fazer bem a um piloto de carro de corridas, e pensei em Fernando Alonso.

Se eu fosse o Prado, o Dácio ou o Keating, puxaria o espanhol para uma conversa, e diria para ele viver cada corrida como se fosse a última, que se divertisse e nem ligasse por estar no final do pelotão.

Assim como os poetas, os pilotos também acabam do mesmo jeito: fertilizando narcisos.

E transformam-se em fotografias esmaecidas, trancafiadas em uma moldura, penduradas em uma parede.

ABAIXO, CENA DO FILME "SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS"

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SOBRE O COLUNISTA

No 2º ano do primário, sua professora, a dona Mitsy, escolheu sua redação para que ele a lesse para toda a sala. Depois, as professoras de todas as outras séries do primário o convocaram para a mesma tarefa.

Após essa "maratona?, dona Mitsy lhe disse uma única frase, que ficou ressoando em sua cabeça por todos os anos que seguiram:

"Marcos, nunca deixe de escrever!?

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