Milton Neves

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19/09/2012 12:55

por:
Alex Medeiros

A verdadeira esquerda alemã

No jogo filosófico que resultou a força da esquerda alemã, Hegel recebeu de Kant, tocou para Feuerbach, que tabelou com Weber e deixou com Marx, que passou para Engels, que lançou Adorno, que enfiou para Erich Fromm, armando o gol de Marcuse.

No jogo filosófico que resultou a força da esquerda alemã, Hegel recebeu de Kant, tocou para Feuerbach, que tabelou com Weber e deixou com Marx, que passou para Engels, que lançou Adorno, que enfiou para Erich Fromm, armando o gol de Marcuse.

O lance ilustrativo com o grande elenco de pensadores germânicos é só uma preliminar literária para a apoteose histórica de um dos mais talentosos profissionais que soube utilizar como poucos as ações da esquerda em favor do bem estar das multidões.

Herbert Marcuse lançou em 1964 a obra que afirmaria de uma vez sua condição de filósofo da contracultura, “O Homem Unidimensional”. No ano anterior fora criada a Bundesliga, o campeonato de futebol no formato disputado até os dias atuais.

No livro, o olhar sociológico de Marcuse critica a opressão industrial sobre o indivíduo e prega a luta por liberdades. Já havia respondido afirmativamente ao colega Adorno sobre se haveria possibilidade de arte na Alemanha após a tragédia de Auschwitz.

Os alemães venceram a Copa de 1954 jogando um futebol de força que atropelou o jogo libertário dos húngaros. Um menino de dez anos torceu pelo rádio, sem imaginar que seria ele, mais dez anos na frente, a mudar paradigmas no jeito alemão de jogar.

Wolfgang Overath, um baixinho com trejeitos latinos, chegou no time do Colônia em 1962 recém-saído da adolescência. A maneira como tocava na bola, a rapidez no drible e a precisão dos longos passes em nada lembravam o futebol vigoroso do país.

Não demorou nada para tornar-se uma referência em campo e nas arquibancadas da enorme e apaixonada torcida, que foi à loucura com suas jogadas que culminaram em gols e foram fundamentais para a conquista no ano de estreia da Bundesliga.

O futebol vistoso e criativo de Overath foi a antítese do estilo totalitário que sufocou o belo jogo da Hungria de Puskas; e na analogia boleira, um retrato lúdico daquilo que Marcuse havia dito a Adorno: sim, era possível arte em campos da Alemanha.

A perna canhota do pequeno craque ocupava as dimensões dos gramados como um compasso de ossos, músculos e fibras a demarcar seus domínios. Conduzia a bola como um líbero cerebral italiano e distribuía passes com a técnica apurada dos latinos.

De visão ampla, como um lince vasculhando cada centímetro de espaço, se deslocava da direita para a esquerda com a rapidez de um conceito de Nietzsche. Era um homem multidimensional, no contraponto ludopédico do famoso livro do filósofo rebelde.

Durante as duas décadas de ouro do futebol mundial no século XX, 60 e 70, Overath encantou como um dos mais habilidosos jogadores da meia-esquerda, um clássico camisa 10 que atuou em todas as partidas das três Copas do Mundo que disputou.

Ao lado de gênios como Beckenbauer e Gerd Müller, ele permitiria ao futebol da Alemanha seu melhor momento histórico, colocando o selecionado nacional nas retas de chegada das copas de 1966 (vice-campeã), 1970 (terceiro lugar) e 1974 (campeã).

É fácil medir a grandeza técnica do baixinho alemão se usarmos a régua dos registros históricos nas copas que atuou, principalmente a de 1970 vencida pela geração de Pelé. É virtuosismo puro o aspecto de ritual em que se transforma a bola aos seus pés.

Na copa disputada no México, em que no meio-campo desfilaram artistas como Gérson e Rivellino (Brasil), Rivera (Itália), Bobby Charlton (Inglaterra), Pedro Rocha (Uruguai) e Cubillas (Peru), a imprensa internacional elegeu Overath o craque do pedaço.

Ele respondeu ao honroso título superando o magistral goleiro uruguaio Mazurkievski, num gol solitário que deu o terceiro lugar à Alemanha naquela copa. Quatro anos depois, surpreendendo o planeta, o time de Overath paralisou um carrossel.

Veterano em 1974, Overath teve a posição na seleção ameaçada pelo jovem Netzer, do Real Madrid, que havia jogado muito na conquista alemã da Eurocopa 72. Mas o técnico Helmut Schön preferiu a junção de talento e experiência do velho craque.

Eu estava prestes a completar 15 anos, mas já tinha idade suficiente para entender que aquela final épica no estádio olímpico de Munique não tinha na Holanda a favorita anunciada, nem na Alemanha uma presa fácil. Havia craques demais em ambas.

Assim como a Copa de 1966 gerou a imagem de Bobby Moore puxando a camisa de Overath, a de 1974 deixou para a história a foto do mesmo Overath impedindo a progressão de Cruijff num salto ceifando a bola e o próprio ar em torno de ambos.

Comandou com Beckenbauer e Breitner as ações que descascaram a laranja mecânica do maestro holandês. Até hoje, teóricos buscam explicação para a vitória alemã. A resposta é simples e ao mesmo tempo grandiosa, como a perna esquerda de Overath.

Imagem: @CowboySL


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